Boeing pagará US$ 4,2 bi para se unir à Embraer

Boeing pagará US$ 4,2 bi para se unir à Embraer

Gigante americana da indústria de aviões vai desembolsar 10% mais que o previsto para assumir controle de nova empresa a ser criada a partir da divisão de jatos comerciais da brasileira, mas decisão final caberá a Bolsonaro

A Boeing vai pagar mais que o inicialmente previsto para se associar à Embraer na área de aviação comercial. A gigante americana da indústria de aviões vai desembolsar US$ 4,2 bilhões (cerca de R$ 16,5 bilhões) para ficar com 80 % da nova empresa que será criada com foco em aviação comercial, sediada no Brasil. O valor é 10% maior que os US$ 3,8 bilhões que haviam sido acertados em julho, quando as duas empresas anunciaram o negócio. Agora, depende de aprovação do governo federal, que tem uma ação de classe especial, a chamadagoíden share, que dá direito de veto à União para decisões estratégicas da Embraer desde a sua privatização, nos anos 1990. A decisão final deverá caber ao próximo presidente, Jair Bolsonaro.

Com mudanças na avaliação, a nova empresa passa a valer US$ 5,26 bilhões, e não mais US$ 4,75 bilhões, como informado anteriormente. A divulgação ontem dos termos do negócio aprovados pelo Conselho de Administração da Embraer a Boeing não precisa desse tipo de aval levou as ações da brasileira a figurarem entre as maiores altas do dia. Chegaram a subir mais de 5% e fecharam com ganho de 2,51%, cotadas a R$ 21,25, num dia fraco na Bolsa de Valores de São Paulo, a B3. O Ibovespa fechou com quedade 1,2%. Nos EUA, as ações da Boeing subiram 0,36%. Segundo pessoas próximas à negociação, o valor mudou porque, em julho, ainda não havia uma análise profunda dos custos que a separação da divisão de aviação comercial da Embraer para integrar a nova empresa poderia acarretar. A Embraer manterá sob seu controle exclusivo as divisões de jatos executivos, agrícolas e de defesa e segurança.

-Antes não havia diferenciação entre os ativos totais da Embraer e os da aviação executiva. Estavam todos sob a mesma companhia. Agora, há diversos custos. Quando se faz separação de ativos há tributação, por exemplo. Por isso, o valor inicial que a Boeing pagaria acabou subindo em 10% disse uma fonte. A Embraer espera que o resultado líquido de todos os custos de separação seja de aproximadamente US$ 3 bilhões. Qualquer redução desse custo até adata do fechamento do negócio será compartilhada igualmente entre Embraer e Boeing, informou o fato relevante divulgado pelas companhias ao mercado. A nova empresa está sendo chamada inicialmente de JV Aviação Comercial ou Nova Sociedade, mas este não deve ser o nome definitivo. Ainda não está claro se o nome Embraer será mantido nos aviões vendidos a companhias aéreas.

Em relatório, analistas do banco BTG Pactuai afirmaram que os custos de separação da aviação comercial do restante da empresa, incluindo impostos a serem pagos sobre ganhos de capital, devem ultrapassar US$ 3 bilhões. Para eles, entretanto, as empresas terão incentivos para reduzir esses custos e dividir os ganhos. `Nossa visão é que o valor final a ser recebido pela Embraer, líquido de impostos, ainda tem riscos crescentes`, diz o relatório.

ASSOCIAÇAO PARA KC-390

Embraer e Boeing também chegaram a um acordo sobre a formação de uma segunda empresa para promover e desenvolver novos mercados para o avião cargueiro multimissão KC-390. Nesse caso, a Embraer ficará com 51% de participação na jointventure, e a Boeing, com os 49% restantes. Os percentuais ainda não haviam sido divulgados. Apesar dessa associação, a Embraer continuará dona de 100% da área de defesa e de jatos executivos, que serão sua principais fontes de receita a partir de agora. A empresa também ganhará com os lucros da associaçao com a boemg na aviaçao executiva, mas na proporção de sua participação: 20%. Para o advogado Felipe Bonsenso, especializado em Direito Aeronáutico, a confirmação de uma segunda joint venture envolvendo o KC-390 é positiva porque abre novos mercados para a área de defesa da Embraer, utilizando a força de vendas da Boeing.

-A Embraer já vinha sofrendo no mercado internacional, e o acordo com a Boeing veio em boa hora. Além disso, os recursos e a participação da empresa nas joint ventures poderão ser canalizados para a Embraer disse Bonsenso. Em teleconferência com investidores, o presidente da Embraer, Paulo César de Souza e Silva, disse que a associação com a Boeing é `um marco, que acelerará o crescimento da empresa` e cria o maior grupo de aviação do mundo.

A aliança, no entanto, só sairá do papel depois da palavra do governo brasileiro. A partir de agora, o governo terá 30 dias para decidir se exerce ou não o direito de veto. O calendário deixa a tarefa para Jair Bolsonaro, que assume em janeiro. Ele já disse publicamente que apoia aunião entre as duas empresas. Militares também já deram sinais favoráveis, já que a unidade de defesa foi mantida na Embraer. Segundo autoridades envolvidas nas negociações, o atual governo não tem interesse em acelerar a aprovação, faltando poucos dias para o fim do mandato de Michel Temer. Nas palavras de um negociador, ninguém está disposto `a matar essa bola no peito nessa altura do campeonato`. As duas empresas demoraram para fechar os termos do acordo, que era esperado para o fim de novembro. Agora, o prazo é considerado muito curto para ser avalizado por Temer, considerando as etapas que ainda faltam.

A Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) ea Secretaria de Economia e Finanças da Força Aérea (FAB) têm até 30 dias para analisar se os termos do contrato não ferem o que prevê a golden share. Cumprida esta etapa, a Embraer terá de convocar uma AssembleiaGeral de Acionistas obrigatoriamente realizada 30 dias após marcada para aprovar o negócio, que precisa ainda ser ratificado pelo Conselho de Administração da empresa. Por fim, órgãos de defesa da concorrência vão avaliar o negócio, processo que deve durar entre oito e dez meses. Os executivos que serão escolhidos para dirigir a nova empresa no Brasil, incluindo o presidente do seu Conselho de Administração e o presidente executivo, responderão diretamente a Dennis Muilenburg, que acumula a presidência executiva da Boeing e do seu Conselho. A Embraer terá poder de decisão em alguns temas estratégicos, como a transferência de operações do Brasil. Mas a empresa brasileira poderá, a qualquer momento, vender sua fatia para os americanos e sair do negócio.

TENSAO ENTRE EMPREGADOS

O Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos informou que, embora tenha pedido reuniões com a Embraer para discutir a preservação dos empregos após a associação, não foi atendido. Segundo o diretor Herbert Carlos, o clima é de apreensão entre os funcionários:

-A Boeing espera comprar uma empresa mais enxuta, e a expectativa é de demissões. Não fomos chamados para uma conversa pela empresa. O negócio é questionado na Justiça pelo sindicato. A fusão chegou a ser suspensa por liminar concedida pela 24- Vara Cível Federal de São Paulo em 6 de dezembro. A decisão foi tomada após um grupo de quatro deputados federais do PT ajuizarem ação popular pedindo a suspensão do acordo. Mas a liminar foi cassada quatro dias depois pelo Tribunal Regional Federal da 3- Região, a pedido da Advocacia- Geral da União (AGU). Ontem, o presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), ministro João Batista Brito Pereira, revogou, nesta segundafeira, decisão do Tribunal Regional do Trabalho em Campinas (SP), que poderia dificultar o negócio. No despacho, o ministro concluiu que as negociações entre Boeing e Embraer estão fora do âmbito da Justiça trabalhista.

JOAO SORIMA NETO, GERALDA DOCA E MARTHA BECK

(Colaborou Ana Paula Ribeiro)

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