Biden consolida mudança de rumo em política para a Arábia Saudita e pressiona monarquia sobre direitos humanos

Biden consolida mudança de rumo em política para a Arábia Saudita e pressiona monarquia sobre direitos humanos

20:37 - Em conversa com rei Salman, presidente americano se compromete com segurança do país árabe, mas faz cobranças sobre direitos humanos; governo dos EUA deve divulgar relatório sobre morte de jornalista saudita

O presidente Joe Biden conversou pela primeira vez desde que assumiu o cargo com o rei da Arábia Saudita, Salman, enquanto os EUA se preparam para divulgar ao público o teor de um relatório sobre o assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi, implicando diretamente o príncipe herdeiro do país, Mohammed bin Salman.

A opção por falar primeiro com o monarca de 85 anos (ao invés de Bin Salman, interlocutor de Donald Trump) e a decisão de divulgar em breve o relatório confirmam a mudança de rumo prometida por Biden nas relações com o reino, que foi aliado próximo a Trump, mesmo diante de abusos dos direitos humanos, repressão interna e da execução de Jamal Khashoggi.

Segundo a Casa Branca, Biden reiterou, na conversa, o compromisso dos EUA com a defesa do país, mencionando ataques realizados por grupos aliados do Irã, uma menção indireta aos houthis, que travam uma guerra contra as forças apoiadas pelos sauditas no Iêmen. Ao mesmo tempo, Biden "afirmou a importância que os EUA dão aos direitos humanos e à aplicação da lei", e elogiou a libertação recente de ativistas, como Loujain al-Hathloul. Biden afirmou também que pretende fazer dessa relação "a mais forte e transparente" possível.

Até então, Bin Salman, líder de fato do país, era o principal interlocutor da Casa Branca — mas ao ser apontado como o mandante do crime, ele pode definitivamente ser colocado de lado, ou até, em último caso, ser alvo de sanções. O relatório implicando o príncipe herdeiro foi produzido em 2018, logo depois da morte de Khashoggi, executado dentro do consulado saudita em Istambul, e chegou a ter trechos revelados pela imprensa, mas oficialmente nunca foi publicado. Segundo a Casa Branca, Biden leu o documento antes de conversar com o rei Salman.

A mudança de rumo de Biden para a Arábia Saudita foi anunciada desde a campanha à Presidência, e quebra um período de aproximação quase visceral durante o governo Trump — vale lembrar que a primeira viagem internacional do ex-presidente foi a Riad, em 2017.

Pressão:Documentos judiciais e relatório dos EUA apontam que Bin Salman sabia do plano para matar jornalista saudita

Os já elevados negócios da indústria armamentista com o reino deram um salto a partir daquele ano, a ponto de o país árabe se tornar o maior importador mundial de armas, segundo dados do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo. Muitas delas acabaram usadas na intervenção militar no Iêmen, cujo apoio americano foi retirado por Biden em seus primeiros dias no cargo.

Indo além do Iêmen, Trump ajudou os sauditas a se livrarem dos impactos internacionais do assassinato de Khashoggi — um crime que, como mostraram os relatórios da ONU e dos próprios EUA, contou com a participação direta do príncipe herdeiro. Trump não apenas evitou qualquer crítica, condenação ou mesmo sanções mais amplas — medida comum contra nações vistas como inimigas — como ampliou a cooperação com Riad.

“Eu salvei o traseiro dele. Eu consegui que o Congresso o deixasse sozinho. Consegui fazer com que parassem”, afirmou Trump, em entrevista a Bob Woodward, revelada no livro “Fúria”, publicado no ano passado. Ali, o ex-presidente declarava acreditar em Bin Salman, que declarou inocência em algumas ocasiões, segundo Trump.

Recalibragem
Durante a campanha, Biden não poupou críticas à Coroa saudita. Em um discurso, chegou a prometer que faria a Casa de Saud “pagar o preço, e fazê-los perceber como eles são párias”. Mas a distância entre discursos de um candidato e os proferidos pelo presidente dos EUA é bem maior do que os 10.830 km que separam as duas capitais.

Os sauditas continuam a ser os principais clientes da indústria militar americana, e devem continuar sendo, mesmo com as prometidas reduções nos repasses de armamentos. Há ainda a questão do petróleo, afinal, os sauditas continuam a ser líderes globais no fornecimento do produto —- e a prometida transição para uma economia verde, como prevê Biden, vai levar alguns anos até decolar.

Biden levou em conta a cooperação contra o terrorismo e a segurança na região do Golfo Pérsico, em especial na contenção ao Irã. Afinal, o retorno dos EUA ao acordo sobre o programa nuclear iraniano ainda parece distante, e Teerã deve ter novamente os conservadores na Presidência depois das eleições marcadas para junho, tornando mais duras as negociações.

Talvez por isso o discurso oficial da Casa Branca não seja o de quebra ou pressão sobre Riad, mas sim o de repensar uma parceria iniciada em 1945 por Franklin Roosevelt e pelo rei Abdulaziz.

— A intenção do presidente, assim como a intenção deste governo, é de recalibrar nossos laços com a Arábia Saudita — declarou a porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, antes do telefonema. — Mas também há outras áreas onde seguiremos trabalhando com a Arábia Saudita, dadas as ameaças que eles enfrentam na região.

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