Atraso na entrega da Sputnik prejudica vacinação em países da América Latina e atrapalha planos russos

Atraso na entrega da Sputnik prejudica vacinação em países da América Latina e atrapalha planos russos

Argentina, Guatemala e Bolívia estão entre os principais afetados; causas para a demora passam pela diferença entre as duas doses e problemas de infraestrutura

A suspensão da entrega das vacinas russas que deveriam desembarcar no Nordeste nesta semana não é exclusividade brasileira. Se o Kremlin apostou na diplomacia da vacina para alavancar seu poder brando e rechear seus cofres, a estratégia tem sido prejudicada por atrasos globais no envio das doses — algo que prejudica particularmente países latino-americanos.

O nome da dose russa, por si só, indicava suas ambições: Sputnik V, uma referência ao primeiro satélite artificial posto em órbita, em 1957. O V é uma abreviação de "vitória", segundo Kirill Dmitriev, o chefe do Fundo de Investimento Direto Russo (RDIF), agência responsável pela promoção internacional do inoculante. Tal qual na corrida espacial, o objetivo era ser pioneiro.

Não foi à toa que a Rússia anunciou que o Instituto Gamaleya de Moscou havia conseguido fabricar uma vacina eficaz contra a Covid-19 antes de qualquer outro laboratório, em 11 de agosto de 2020, após menos de dois meses de testes em humanos. Quem correu para assegurar as doses, contudo, tem problemas para recebê-las.

O RDIF diz ter acordos para produzir 1,6 bilhão de vacinas Sputnik V até o fim do ano. Até o momento, contudo, conseguiu entregar apenas 99,1 milhões delas, segundo os dados da consultoria britânica Airfinity.

Uma das situações mais críticas é da Argentina, que esperava receber 22 milhões de doses do inoculante no primeiro trimestre — até hoje, chegaram apenas 11,8 milhões.

Enquanto isso, a campanha de vacinação do país vai ficando para trás. Cerca de 54,3% dos argentinos foram inoculados com uma dose e 14,5% com as duas. As duas nações mais adiantadas do continente, Chile e Uruguai, que apostaram maciçamente na chinesa CoronaVac, já aplicaram as duas doses em mais de 60% de seus habitantes.

O atraso é complicado por uma particularidade da vacina russa, que, ao contrário das concorrentes, tem fórmulas diferentes para suas duas doses. Assim, diz o Gamaleya, elas "geram uma resposta imune maior e de mais longo prazo" do que se fossem iguais. Apenas 20% das vacinas já entregues à Argentina, no entanto, correspondem a segundas doses.

Segundas doses
No início de julho, a Casa Rosada enviou uma reclamação ao RDIF alertando que o acordo de fornecimento estava em risco se a demora continuasse. A carta chamava a atenção de Moscou também para a política: lembrava que o presidente Alberto Fernández assinara um decreto autorizando a importação de doses americanas.

Na última quarta, desembarcaram em Buenos Aires 500 litros do princípio ativo das segundas doses da Sputnik, suficientes para fabricar cerca de 760 mil vacinas, segundo o laboratório Richmond, responsável pela produção doméstica do inoculante. No mesmo dia, Buenos Aires anunciou que firmou um contrato para receber 20 milhões de injeções adicionais da Pfizer até o fim do ano.

O prazo recomendado entre as doses russas é de três meses, prestes a expirar para muitos argentinos. Com os atrasos, o RDIF disse que o intervalo pode ser prorrogado para 180 dias, janela que preocupa especialistas diante da disseminação da variante Delta, mais contagiosa.

Um dos motivos apontados por analistas para a demora é que o vetor adenoviral Ad5, usado para fazer a segunda dose, é mais demorado de se produzir do que o Ad26, componente da primeira injeção. Para muitos, houve também um erro de cálculo. Os maiores laboratórios russos construíram novas fábricas e renovaram seus equipamentos, mas pô-los para funcionar não tem sido sem inconvenientes.

— Os fabricantes desenvolveram seus planos de exportação baseando-se na produção local, mas superestimaram demais a capacidade de produção — disse à Bloomberg Samuel Ramani, especialista em relações internacionais da Universidade de Oxford.

Problemas regionais
A Guatemala, onde somente 9% da população receberam ao menos uma dose, também foi bastante prejudicada. Na terça, o país anunciou o cancelamento da compra de um segundo lote de 8 milhões de doses e disse que negociaria com outros laboratórios.

O acordo inicial previa a entrega de 16 milhões de doses da Sputnik, em duas levas iguais. Os guatemaltecos, no entanto, receberam apenas 550 mil vacinas da metade inicial. O atraso é um dos motivos dos protestos recentes no país, com pedidos de renúncia do presidente Alejandro Giammattei e de investigação dos contratos.

Em resposta, o RDIF disse que o contrato com o país centro-americano foi apenas reajustado para um novo cronograma. Segundo o fundo, "diante da demanda internacional sem precedentes pela vacina, nós estamos enfrentando alguns problemas de estoque de curto prazo".

O México também vê atrasos, assim como a Bolívia, onde foi anunciado nesta semana que se estuda misturar doses de laboratórios diferentes. La Paz recebeu apenas 1,2 milhão das 5,2 milhões de doses da Sputnik que deveriam ser entregues até o meio de 2021 e, pressionada pela impaciência popular, firmou novos acordos de compra com a Sinopharm.

No caso brasileiro, os estados do Consórcio do Nordeste não vão mais receber nesta semana as 1,1 milhão de doses que inaugurariam o uso do imunizante, ainda não aprovado pela Anvisa, em território nacional. Diferentemente dos vizinhos, contudo, a situação nacional tem subtons políticos mais claros: o RDIF anunciou que cancelaria o envio após o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, dizer que o Brasil "não tinha necessidade" do inoculante.

Insistência
Os problemas não se resumem à América Latina. Nas Filipinas, um carregamento de 50 mil doses chegou em julho após semanas de atraso na aplicação das segundas injeções. Também há relatos de atrasos no Irã, na Índia e em diversos países africanos.

Segundo o Kremlin, a demora deve-se em parte à necessidade de aumentar a produção para o mercado interno. O país, no entanto, enfrenta uma enorme dificuldade para inocular sua população: menos de 25% dos russos receberam ao menos uma dose, apesar de campanhas de incentivo que fazem sorteios de carro e oferecem dinheiro vivo.

Há no país grande hesitação diante de novos produtos médicos, em especial os desenvolvidos domesticamente, e um significativo movimento antivacinação. A falta de transparência de Moscou é um fator que complica também suas ambições diplomáticas.

O RDIF diz que a vacina tem aproximadamente 90% de eficácia contra a variante Delta, apenas um pouco inferior à cepa anterior do vírus. Os números, contudo, são contestados por especialistas que pedem maior acesso aos dados de testes clínicos e apontam inconsistências metodológicas.

A Sputnik até hoje não recebeu o aval da Organização Mundial da Saúde ou da Agência Europeia de Medicamentos, apesar de vários países do bloco, em especial do Leste Europeu, usarem suas doses. Ainda assim, uma reportagem publicada pela prestigiosa revista Nature há um mês apontava que as evidências sugerem que o antígeno russo é eficaz e seguro. Segundo o RDIF, 69 países já autorizaram seu uso. (Com informações de La Nación)

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