Atacar e cortar entrevista após pergunta incômoda são rotina para Bolsonaro

Atacar e cortar entrevista após pergunta incômoda são rotina para Bolsonaro

No domingo, presidente disse ter vontade de dar porrada em repórter que perguntou sobre depósitos de Queiroz à primeira-dama

`A vontade é encher tua boca com uma porrada, tá?` A frase usada po r Jair Bolsonaro no domingo (23) para responder a um repórter que perguntou a ele sobre depósitos feitos por Fabrício Queiroz à primeira-dama é o mais recente capítulo de uma prática adotada pelo presidente desde o início do mandato: encerrar de maneira abrupta declarações à imprensa, por vezes de forma agressiva, e evitarperguntas incômodas durante crises políticas.
O hábito foi mais freqüente a partir do segundo semestre do ano passado, com a repercussão de crises e de esc ándalosno governo.
No domingo, durante uma visita de cinco minutos a ambulantes da Catedral de Brasília, um repórter do jornal O Globo questionou o presidente sobre os motivos para Queiroz e a mulher dele terem repassado R$ 8y mil para a conta de Michelle Bolsonaro.
Após a insistência do repórter, sem olhar diretamente para ele, afirmou; `A vontade é encher tua boca com uma porrada, tá?`
Amigo do presidente há 30 anos, Fabrício Queirozatuou como assessor do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos- RJ) na Assembleia Legislativa do Río de janeiro, quando o filho do presidente era deputado estadual.
Queiroz atualmente está em prisão domiciliar, junto com a mulher, Márcia, e, assim como Flávio, é investigado sob suspeita dos crimes de peculato, organizará o criminosa e lavagem de dinheiro.
Nesta segunda-feira (24), em co nversa reservada relatada à Folha, o presidente reconheceu que exagerou na declaração, mas ainda não definiu se pedirá desculpas públicas.
Ele tratou do assunto com ministros como Fábio Faria (Comunicações) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo).

Nas conversas, Bolsonaro disse que não pretende repetir nos próximos dias a retórica inflamada que, na avaliação dele, pode prejudicar o anúncio de pautas positivas, como por exemplo o programa Renda Brasil.
A declaração do presidente foi considerada desastrosa tanto por integrantes da cúpula militar como da equipe econômica.
Para eles, Bolsonaro criou sem motivo uma pauta negativaeontra sua própria gestão no momento no qual vinha recuperando a sua imagem pública.
O ideal, na opinião de assessores do governo, é qu e o presidente viesse a público pedir desculpas.
As respostas agressivas de Bolsonaro a repórteres e as recusas a responder perguntas tiveram uma trégua nos últimos meses.
Isso ocorreu depois que jornalistas deixaram de comparecera portariado Palácio da Alvorada por razões de segurança e depois que o próprio mandatár io passou a conversar com seus apoiadores dentro da residência oficial, à qual profissionais da imprensa não têm acesso. Mas o hábito revivido neste domingo foi uma constante em 2019, nos prímeiros meses deste ano e no início da pandemia, nos meses de março, abril e maio.
A maior parte desses episódios teve relação com denúncias envolvendo auxiliares presidenciais, como o ministro Marcelo Álvaro Antônio (Turismo) e o secretário Fábio Wajngarten (Secom), e controvérsias relacionadas a seus filhos, como Flávio e o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).
Em março, por exemplo, o presidente Bolsonaro encerrou duas entrevistas quando jornalistas perguntaram se tinha provas para justificar a suspeita, levantada por ele, de que houve fraude na eleição de 2018.
Durante uma visita a Miami, nos EUA, ele disse que se não fossem essas fraudes, teria vencido a eleiç ão j á no p ri meiro turno da disputa.
Também em março, o presidente escalou o comediante Márvio Lúcio dos Santos L ourenço, daT VRecord, conhecido por ínteipretaro personagem Carioca, para evitar- perguntas dos repórteres sobre o baixo crescimento do PIB {Produto Interno Bruto) em 2019, que ficou em r,r%.
Na ocasião, ele ironizou os questionamentos e soprou no ouvido de Carioca as respostaspara jornalistas: `PIB? PIB? O que que é PIB? Pergunta o que que é PIB`.
Em maio, questionado por repórteres sobre mudanças no comando da Polícia Federal, Bolsonaro mandou os profissionais que fizeram as perguntas calarem a boca e atacou a Folha, chamando o jornal de `canalha`, `patife` e `mentiroso`.
Em outra ocasião, também na área em que costumava dar entrevistas à imprensa em frente ao Alvorada, o presidente interrompeu repórteres que tentavam lhe dirigir perguntas e apoiou as manifestações de um apoiador que chamou jornalistas no local de `canalhas` e os acusou de `jogar os ministros contra Bolsonaro`.
Mais recentemente, no fim de julho, Bolsonaro encerrou tuna entrevista em Bagé (RS) após ser indagadosobre os estudos do governo para a criação de umnovo imposto nos moldes da antiga CPMF. `Acabou a entrevista. Valeu, gente, obrigado`, reagiu.
Em administrações anteriores, diante de suspeitas envolvendo o Poder Executivo, Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (MDB), por exemplo, submergiam e preferiam adotar como estratégia o silêncio, posicionando-se sobre os temas em notas oficiais.
No inicio do governo, Bolsonaro também foi aconselhado a se esquivar de repórteres e fotógrafos em meio a denúncias contra auxiliares presidenciais. Mas não seguiu a recomendação.
Questões envolvendo a família do presidente o írrítam. Além de interromper entrevistas, o presidente coleciona ofensas a repórteres que o questionaram sobre temas envolvendo seus filhos mais velhos.
`Você tem uma cara de homossexual terrível, nem por isso eu te acuso de ser homossexual. Se bem que náo é crime ser homossexual`, disse a um repórter, em dezembro, após pergunta sobre a investigação do Ministério Publico do Rio sobre Flávio.
Em julho, ele chamou de `idiota` pergunta feita pela Folha sobre a Presidência da República ter oferecido carona a seus parentes, em um helicóptero da FAB (Fbrça Aérea Brasileira), para irem ao casamento de Eduardo no Rio.
`Tem familiares meus aqui. Eu prefiro vê-los do que responder uma pergunta idiota para você. Está respondido?` De novo, encerrou a entrevista segundos depois.
O presidente tenta impor condições para conceder entrevistas. As regras nunca são seguidas pela imprensa. No entanto, ele insiste em perguntar previamente que temas serão abordados pelos jornalistas, além de escolher a que veículos de comunicação quer responder.
`Fora, Folha deS.Paulo, você não tem mora] para perguntar`, afirmou em janeiro, ao ser indagado se Wajngarten permaneceria no cargo mesmo após a Folha revelar que ele possui uma empresa que recebe dinheiro de contratadas do governo. `Cala a boca`, disse.
Em meio a tensão, Bolsonaro também recua. `Pessoal, [quero] pedir desculpa ai. Eu estou com a cabeça quente. Desculpa`, disse, quando exi giu e não foram feitas novas reportagens sobre sua primeira participação na abertura da Assemb leia Geral da O NU.

Gustavo Uribe, Talita Fernandes e Ricardo Delia Coletta

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