Artigo: O terror de Estado na Nicarágua e o silêncio da esquerda brasileira

Artigo: O terror de Estado na Nicarágua e o silêncio da esquerda brasileira

10:44 - Regime Ortega-Murillo é hoje um pária, com a sociedade refém da repressão e do arbítrio, numa tragédia política que tem sido assistida com miopia por uma parcela significativa da esquerda no Brasil

Desde 2018, a jornalista feminista Ileana Lacayo era perseguida pelo governo da Nicarágua. Foi ameaçada por denunciar o assassinato do seu colega Angel Gahona, que morreu, em transmissão ao vivo, alvejado pela polícia ao fazer a cobertura da repressão do governo comandado pela Frente Sandinista, FSLN, aos protestos que tomaram a rua naquele ano. Em abril de 2021, Ileana sentiu os primeiros sintomas da Covid-19, mas recusou-se a ir para o hospital porque temia ser presa. Foi internada uma semana depois, quando seus pulmões já estavam comprometidos, e morreu em menos de 48 horas.

A degradação política da FSLN não começou ontem. Vem do final dos anos 1990, quando Zoilamérica, filha de Rosário Murillo e enteada de Daniel Ortega, o acusou de estupro sistemático, mas, apesar da denúncia, ele seguiu impune graças a um espúrio pacto da FSLN com a direita mais corrupta que comandava o governo daquela época. Contudo, desde a explosão civil de 2018, o regime conduzido por Ortega e sua esposa Rosário Murillo tem intensificado a repressão estatal. Nestes três anos, criminalizou as organizações de direitos humanos ocupando ou destruindo suas instalações, aprovou uma lei que proíbe mobilizações sociais, cancelou o registro pelo menos 30 ONGs e se apropriou de seu patrimônio, incluindo o de associações médicas que denunciavam a falta de prevenção na pandemia. E, no final de 2020, aprovou um conjunto de leis que cancelam os direitos políticos de feministas e líderes opositores. Não bastasse, fechou o único jornal diário de circulação nacional.

A repressão exercida pelo regime não é feita apenas pela polícia. Desde 2008, quando aconteceram no país os primeiros protestos contra fraude nas eleições municipais, motoqueiros armados de porretes foram mobilizados pela FSLN para agredir as e os manifestantes que fossem às ruas contra o governo. A ação dessas milícias se tornou ainda mais violenta na revolta cívica de 2018 contra a reforma do sistema previdenciário que Ortega pretendia aprovar, seguindo as recomendações do FMI.

De porretes passaram a recorrer a armas de guerra e franco-atiradores, que, em conjunto com a polícia, deixaram um rastro de 328 assassinados, segundo relatório da Anistia Internacional e investigadores independentes solicitado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos. A essa macabra contabilidade, devem ser adicionados ao menos 130 das mais de 1.500 pessoas então detidas, que continuam presas, a maioria das quais foi submetida a torturas e violência sexual.

A truculência política de Ortega foi escancarada no primeiro trimestre de 2021 por alguém que, até o final de 2018, foi um de seus principais artífices: o ex-ministro do Supremo Tribunal Rafael Solís. De seu exilio na Costa Rica, Solís disse que orientava juízes a elaborarem as condenações dos presos nos protestos muito antes, inclusive, de as investigações começarem. Na repressão de rua, “a ordem era atirar na cabeça e no pescoço”, como confirmaram as perícias dos investigadores independentes. Muitas pessoas morreram porque os hospitais públicos foram expressamente proibidos de atender os feridos. Médicos que ousaram confrontar as ordens do governo foram demitidos ou acabaram se exilando. A repressão e as prisões dos últimos meses, por sua vez, têm como objetivo impedir que o regime seja derrotado nas eleições presidenciais previstas para novembro.

O regime Ortega-Murillo é hoje um pária, isolado pela comunidade internacional, e isso deixa a sociedade refém da repressão e do arbítrio. Lamentavelmente, essa tragédia política tem sido assistida com cruel miopia e silêncio por uma parcela significativa da esquerda brasileira, que continua refém da narrativa oficialista de que a crise decorre de mais um “golpe imperialista”. Cabe perguntar se o regime político nicaraguense pode ainda ser nomeado como democracia ou se não seria mais apropriado dizer que é, de fato, uma tirania. Mais um regime que reprime sistematicamente a sociedade civil, impedindo sua movimentação e crítica e dilapida o que seriam instituições democráticas, tal como também acontece na Venezuela e em Cuba.

Como pessoas visceralmente comprometidas com a justiça social, a democracia, o feminismo e o respeito pelos direitos humanos, perguntamos: deve-se aceitar tudo o que fazem e cometem nossos (supostos) aliados em nome da “realpolitik”? É política e eticamente aceitável calar frente a violações sistemáticas de direitos humanos em nome “da complexidade” das conjunturas internas de outros países? Nossa posição sobre a Nicarágua está afinada com o que dizem outras vozes da esquerda latino-americana, incluindo o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica: não é digno nem decente defender os direitos humanos por «razões políticas» quando isso é conveniente e calar quando não o é. A catástrofe política da Nicarágua não pode continuar a ser tratada pelo campo de esquerda, no Brasil , como problema menor, ou crise que não nos diz respeito.

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