Argentina tenta sair da crise pela exportação

Argentina tenta sair da crise pela exportação

13:11 - Governo argentino quer dobrar as exportações nos próximos cinco anos, mas economistas e empresários veem plano com ceticismo e citam excesso de intervenção do Estado na economia

O governo argentino diz que pretende dobrar as exportações nos próximos cinco anos, apesar de uma economia em dificuldades e da suspensão no mês passado de uma de suas principais exportações — a carne bovina.

A Argentina é um dos países mais atingidos pela pandemia de covid-19, que aprofundou uma crise econômica que já dura três anos. A inflação está em 49%, e as negociações com o FMI sobre o pagamento de um empréstimo de US$ 44 bilhões pararam, o que irritou investidores.

Mesmo assim, Matias Kulfas, ministro da Produção, insiste que a economia está mudando de trajetória. “Este é um momento crucial em que muitos investimentos estão amadurecendo, o que permitirá um salto significativo nas exportações”, disse Kulfas ao “Financial Times”.

Kulfas argumenta que novos projetos em setores como mineração, energia, manufatura e indústria automotiva podem dobrar as exportações argentinas, hoje em cerca de US$ 65 bilhões, nos próximos cinco anos.

Economistas e analistas privados rejeitam essa previsão como excessivamente otimista. Embora o FMI estime um crescimento de 5,8% do PIB argentino neste ano, à medida que a potência agrícola se beneficia do crescimento dos preços das commodities, a economia contraiu-se 10% no ano passado e não está nem perto de voltar para o nível pré-pandemia.

Kulfas citou anúncios de investimentos no valor de cerca de US$ 20 bilhões desde que o presidente Alberto Fernández assumiu o poder em dezembro de 2019. Ele disse que só novos projetos de mineração podem adicionar cerca de US$ 12 bilhões às exportações, enquanto a crescente economia do conhecimento da Argentina deverá trazer mais US$ 4 bilhões nos próximos anos.

“O fato é que o potencial existe e a demanda internacional também. Essa é a realidade. Então vamos ver o quanto de sucesso temos em [garantir que todos esses projetos] realmente sigam em frente”, disse Kulfas, ressaltando que muito depende também da rapidez com que os projetos avançam.

Embora muitos concordem que o aumento das exportações é o caminho mais claro para garantir um crescimento econômico sustentado num país com uma escassez endêmica de moeda estrangeira, a Argentina tem lutado sistematicamente para fazêlo.

Desde 1950, a economia tem sido atingida por crises repetidas. Com isso, a Argentina passou mais tempo em recessão do que qualquer outro país, exceto a República Democrática do Congo.

“No ritmo que eles estão indo, não vejo a Argentina nem perto [de dobrar as exportações nos próximos cinco anos]”, disse Martin Rapetti, economista local. Rapetti concorda, no entanto, que o governo está focado nos setores certos. “O que não estou vendo são sinais de que eles vão implementar as políticas para que isso possa acontecer”, acrescentou. Ele teme que outros líderes mais radicais da coalizão
governista possam minar os esforços de Kulfas.

No mês passado, as exportações de carne bovina foram suspensas por 30 dias depois que os preços locais dobraram em relação ao ano passado, atingindo o consumo interno de um dos produtos mais emblemáticos do país. Muitas autoridades ficaram receosas de que isso pudesse prejudicar a popularidade do governo antes das eleições legislativas de novembro.

Um produtor local zombou das esperanças da Kulfas de dobrar as exportações de carne bovina nas circunstâncias atuais: “Isso não acontecerá com [impostos de exportação] e uma taxa de câmbio controlada... Estamos perdendo clientes todos os dias, e alguns deles serão difíceis de recuperar.”

A propensão do governo para intervir em todos os setores da economia — com controles dos preços e do câmbio, congelamentos de tarifas e até ameaças de impulsionar as exportações possa não estar próximo.

Somando-se a esses temores está a crescente influência da vice-presidente, a expresidente Cristina Kirchner, notória defensora da intervenção constante na economia. Kulfas concorda que a previsibilidade da política era essencial para o investimento. “É uma parte importante, que permite que os investimentos continuem ao longo do tempo. Infelizmente, nosso ponto de partida foi muito negativo”, disse ele, apontando
para a necessidade de reestruturar a dívida pública argentina, “que gera muita incerteza”, bem como um elevado déficit fiscal e reservas cambiais esgotadas.

Enquanto o governo tenta resolver esses problemas, Kulfas insiste que os investimentos continuam a chegar, e que a economia está se recuperando. Ele ressalta que o setor industrial já está produzindo mais do que em 2019, antes da pandemia.

“Temos uma economia que hoje está se movendo em velocidades diferentes. Há setores, como indústria, construção e agronegócio, que estão crescendo e, em alguns casos, crescendo muito, enquanto outros setores [como o turismo] foram muito atingidos”, disse Kulfas.

Ele negou que tenha havido um êxodo de empresas estrangeiras da Argentina desde que Fernández assumiu o poder. Disse que a saída do Walmart no ano passado foi por causa de um plano de reestruturação internacional, e a empresa local que comprou o negócio continuou investindo. “Estamos vendo o oposto [de um êxodo], muitos setores estão se posicionando porque veem que a Argentina está em um
ponto de virada”, disse ele.

Mesmo assim, Emily Hersh, sócia-gerente do DCDB Group, empresa de consultoria financeira com escritórios em Buenos Aires, continua cética. “Não há muitos grandes investidores que queiram colocar dinheiro sério na Argentina agora.”

Para ser mais duradoura, a recuperação econômica incipiente e irregular da Argentina neste ano depende muito da capacidade do país de modernizar a sua economia, diz

Kulfas, que está focado no desenvolvimento de novos setores, como lítio, energia renovável e canabis medicinal.

“Muitas pessoas me perguntam: você realmente acha que é o momento para um programa de digitalização... [ou] para falar sobre a revolução verde? E eu digo, sim. É agora. Porque a cada ano que passa, vamos ficar ainda mais para trás das mudanças que ocorrem no mundo... e perder o trem.”

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