Argentina pede aceleração do acordo com UE

Argentina pede aceleração do acordo com UE

Entrevista a Dante Sica. A principal demanda do governo argentino para o presidente Jair Bolsonaro, que chega hoje a Buenos Aires, será pela aceleração da negociação do acordo comercial do Mercosul com a União Européia. O ministro da Produção e Trabalho da Argentina, Dante Sica, disse ao Valor que é importante fechar o acordo agora, quando Estados Unidos e China travam uma guerra comercial.

O ministro da Produção e Trabalho da Argentina, Dante Sica, tem boas expectativas em relação à visita do presidente Jair Bolsonaro à Argentina hoje. Ele acredita que será uma oportunidade para avançar nas negociações do comércio internacional e alinhar os interesses do Mercosul no acordo em negociação com a União Européia (UE). Segundo ele, sobretudo para a Argentina, fechar o acordo num momento em que EUA e China travam uma guerra comercial é uma forma de dar ao mundo um sinal de que `estamos dispostos a respeitar as regras do jogo internacional e queremos fazer parte desse mundo`.

No cargo de ministro desde setembro de 2018, o economista Sica, de 61 anos, foi mais um reforço às idéias liberais da gestão de Maurício Macri. Essa não é sua primeira experiência de governo. Ele foi secretário da indústria e comércio no curto governo de Eduardo Duhalde, entre 2002 e 2003, em meio à crise provocada pelo fim da paridade entre peso e dólar. Sócio da Abeceb, consultoria respeitada de Buenos Aires, Sica tem bom trânsito nas empresas, incluindo representações como a Federação das Indústrias do Estados de São Paulo (Fiesp). Mantém, como ministro, a rotina dessa proximidade.

Para Sica, acordo com UE sinalizará disposição para respeitar regra do jogo internacional; ajudará a atrair investimento``Seria um sinal de que estamos dispostos a respeitar as regras do jogo internacional`, disse Sica.

Em sua primeira visita à Argentina, com sete ministros, Bolsonaro deverá negociar a assinatura de memorandos de entendimentos nas áreas de defesa, bioenergia e mineração. Ele poderá enfrentar protestos da oposição ao presidente argentino, Maurício Macri.

Diz que principalmente em momentos de crise essa `é a melhor forma de ver a realidade`. Aos exportadores brasileiros, que andam irritados com a taxa adicional para importações da Argentina, ele diz que trata-se de medida de curto prazo, necessária para o país cumprir os compromissos de redução do déficit fiscal. Abaixo, os principais trechos da entrevista de Sica ao Valor:

Valor: : O sr. têm participado sempre de eventos nas empresas. Isso ajuda em seu trabalho?

Dante Sica: Ajuda a mostrar a realidade. Os números são frios, não mostram a heterogeneiclade de cada setor. Às vezes, algumas empresas vão mal não pela crise, mas por problemas de gerenciamento. Em outras, é resultado do contexto internacional. Ou então, problemas decorrentes de políticas do governo. É preciso estar atento para saber como agir em cada circunstância.

Valor: As empresas argentinas se queixam da taxa de exportação, chamada `retenciones`. O governo pretende manter essa cobrança ?

Sica: Lamentavelmente no ano passado tivemos que colocar essa taxa. Precisávamos acelerar nosso programa de contenção fiscal. Fizemos um ajuste de gastos, mas não foi suficiente. Então, para poder cobrir e dar um sinal ao mercado de que chegaremos ao ajuste tivemos que recorrer à taxa, que terminará em dezembro de 2020.

Valor: Há um mês o governo argentino também elevou a taxação de produtos importados, com o aumento da taxa `estatística`[que cobre despesas com burocracia aduaneira ] de 0,5% para 2,5%. E incluiu os países do Mercosul, antes isentos.Foi pelo mesmo motivo?

Sica: Essa medida é por pouco tempo. Vai até dezembro. Estamos em um momento de muitas incertezas na política e isso castiga muito nosso risco país. E retarda a recuperação. Se esse não fosse um ano eleitoral a recuperação seria mais rápida. De alguma forma, medidas como essa nos ajudam a dar garantia aos mercados cie que vamos cumprir o compromisso de equilíbrio fiscal. Depois das eleições [em outubro] a taxa cie juros começará a baixar.

Valor: Mas isso não afeta a relação comercial com o Brasil?

Sica: Nós já explicamos ao governo brasileiro. Além disso, estão isentos da taxa os que importam produtos que fazem parte de processo produtivo para exportação e os que importam bens de capital inseridos em programas fomentados pelo Estado.

Valor: O Mercosul sinalizou à UE disposição de ceder uma abertura mais rápida no setor automotivo para fechar o acordo entre os dois blocos. 0 que já foi acertado?

Sica: Estamos na etapa final. Há pontos ainda para acertar.Mas estamos otimistas. Foi importante a pré-disposição do Brasil. Estamos venclo hoje mais boa vontade do governo brasileiro para fechar essa negociação.

Valor: Sob esse aspecto, qual é a importância da visita do presidente Jair Bolsonaro à Argentina?

Sica: É importante para poder continuar consolidando a relação bilateral entre Argentina e Brasil. Podemos alinhar interesses na modernização do Mercosul, avançar nas negociações internacionais e começar a discutir mais flexibilidade nas negociações.

Valor: E qual é, em sua opinião, a negociação mais importante hoje?

Sica: É fechar o acordo com a União Européia. Será um salto de qualidade para o Mercosul. No momento em que o mundo debate as brigas entre Estados Unidos e China e a validade ou não do multilateralismo, um entendimento de livre comércio grande como União Européia e Mercosul é um sinal importante. Com ele, principalmente no caso da Argentina, mostramos ao mundo que estamos dispostos a respeitar as regras do jogo internacional, que queremos ser parte desse mundo. Isso vai ajudar a atrair investimentos.

Valor: Como o sr. vê a guerra comercial entre EUA e China?

Sica: Vejo com preocupação. Estamos falando das duas maiores potenciais mundiais. Num processo de guerra comercial sabemos como entramos, mas a saída é sempre difícil. E isso sempre tem impacto no comércio. Por outro lado, cria oportunidades. Se os Estados Unidos deixarem de vender produtos para a China isso abre oportunidades para nós. Por outro lado, há impacto nos preços e distorções no mercado. Essas guerras nunca são inócuas para o resto dos países. É difícil avaliar. Pode gerar benefícios por um laclo, mas prejuízos por outro.

Valor: O PIB brasileiro caiu 0,2% no primeiro trimestre, em relação ao último do ano passado. O que isso representa para a Argentina?

Sica: É uma má notícia porque quando o Brasil cresce puxa a demanda argentina. Mas temos que ver que isso tem muito a ver com a expectativa da votação da reforma da Previdência. Talvez essa votação traga uma mudança de expectativa que melhore a possibilidade de expansão. Isso pode melhorar o resultado no segundo semestre.

Valor: Na Argentina, os dados indicam queda de consumo de 14,5% em março em relação ao mesmo mês de 2018. Isso é efeito do plano para tentar reduzir a inflação?

Sica: Não. Por um lado, o consumo caiu porque a crise provocou um impacto no salário real. Nos primeiros meses do ano houve uma recuperação salarial. Mas em março a inflação castigou o consumo. Neste mês começam a ser discutidos os reajustes salariais e aí teremos uma reposição.

Valor: Mas compensará a perda?

Sica: Não vai compensar a perda do ano passado, mas, ao menos, ajudará na deste ano.

Valor: £ como anda o movimento sindical na Argentina?

Sica: Os sindicatos estão confusos porque não sabem o que representará o peronismo. Portanto, não sabem onde se posicionar.

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