Araújo diz que governo Bolsonaro não vai mudar por Biden e que espera 'compreensão mútua'

Araújo diz que governo Bolsonaro não vai mudar por Biden e que espera 'compreensão mútua'

14:18 - Para o chanceler, preocupações com o meio ambiente são exacerbadas pela imprensa; a seu ver, atos similares à invasão do Capitólio podem ocorrer em outros países, inclusive no Brasil, se vozes conservadoras forem silenciadas

Samy Adghirni e Walter Brandimarte, da Bloomberg

BRASÍLIA — O governo do presidente Jair Bolsonaro, um dos maiores apoiadores de Donald Trump e seus ideais, quer que o presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, saiba que Brasília não pretende mudar de postura após a troca de poder em Washington.

Por outro lado, espera que o democrata se dê conta de que o Brasil e os Estados Unidos têm muitos interesses comuns — entre os quais a promoção da democracia e da segurança na América Latina. Segundo o chanceler Ernesto Araújo, os países não estão em campos opostos no que diz respeito à preservação do meio ambiente, apesar das críticas maciças de Biden e sua equipe às políticas ambientais do governo Bolsonaro.

— Esperamos que o novo governo americano perceba nosso governo pelo que ele realmente é, por aquilo que o povo brasileiro é e pretende — disse Araújo na quinta, em uma entrevista no seu escritório em Brasília. — Ambas as partes devem fazer um esforço para se compreender mutuamente.

A sintonia fluiu facilmente com a gestão Trump, disse Araújo, não apenas pela amizade do líder americano com Bolsonaro, mas porque Trump entendeu que os brasileiros tomaram uma decisão ao eleger seu presidente.

Em troca do alinhamento brasileiro com posições dos EUA, Trump pôs fim à proibição da importação de carnes nacionais e apoiou a candidatura brasileira para ingressar na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Foram ainda firmados acordos de cooperação em defesa e exploração espacial.

O Brasil tem a maior economia da América Latina e os EUA são seu segundo maior parceiro comercial, atrás apenas da China. No entanto, Bolsonaro está publicamente em desacordo com Biden desde que o democrata disse, durante um debate de campanha, que Brasília estaria sujeita a “consequências econômicas significativas'' se não agisse para preservar a Amazônia.

Em dezembro, fontes familiarizadas com os planos de Biden disseram que o novo governo americano planeja liderar uma frente ocidental unida para pressionar Bolsonaro. O objetivo é forçá-lo a adotar políticas ambientais mais eficazes, após dois anos de indignação internacional diante da propagação de incêndios destrutivos na Amazônia.

Araújo, contudo, diz que a imprensa local e internacional exacerba as preocupações com o meio ambiente. O Brasil permanece no Acordo de Paris, afirmou o chanceler, e fez uma oferta para antecipar sua meta de emissão zero de carbono em troca de US$ 10 bilhões por ano de países desenvolvidos — uma compensação por serviços ambientais. Se os EUA estiverem dispostos a retornar ao acordo, segundo o ministro, haverá mais dinheiro sobre a mesa para tais pagamentos.

Conservadores silenciados

Bolsonaro, que se autodenomina a versão brasileira de Trump, apoiou publicamente a tentativa de reeleição do republicano e foi um dos últimos líderes globais a parabenizar Biden por sua vitória. Na semana passada, quando a turba pró-Trump invadiu o Capitólio, o presidente brasileiro voltou a afirmar que houve “muita fraude” no pleito dos EUA, tal qual nas eleições brasileiras de 2018 — que, a seu ver, deveria ter ganhado em primeiro turno. Não há evidências de irregularidades em nenhum dos dois sufrágios.

Araújo se recusou a comentar as acusações de fraude, mas disse que as preocupações sobre os sistemas de votação nos EUA, no Brasil e em outros países são legítimas e devem ser abordadas. O chanceler condenou a violência em Washington no último dia 6, mas advertiu que o incidente, a seu ver, não pode ser usado para calar vozes conservadoras pelo mundo.

— Por mais que nada justifique a invasão, nada justifica o cerceamento da liberdade de expressão, que é um valor democrático tão importante quanto a integridade física — disse, criticando a decisão do Twitter de banir Trump e de remover milhares de seus seguidores sem maiores explicações. — Está virando uma caça às bruxas.

O ministro não descartou a possibilidade de que atos similares aos vistos em Washington ocorram em outros países, incluindo no Brasil em 2022.

— Se as pessoas se sentem sufocadas na sua capacidade de falar e ouvir, qualquer país pode ter problemas sérios.

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