Após cessar-fogo em Gaza, Israel intensifica repressão contra cidadãos árabes do país

Após cessar-fogo em Gaza, Israel intensifica repressão contra cidadãos árabes do país

12:41 - Morador da cidade de Jaffa, perto de Tel Aviv, relata rotina de violência policial contra árabes-israelenses.

A polícia israelense prendeu centenas de árabes-israelenses nesta semana por suspeitas de participarem de distúrbios e enfrentamentos em cidades majoritariamente árabes e mistas. Sete dias após o cessar-fogo entre Israel e o Hamas, o governo é acusado de fazer vista grossa para ações de judeus ultranacionalistas, enquanto aumenta a repressão sobre a minoria árabe.

A onda mais recente de prisões foi anunciada na segunda-feira como uma ofensiva para “levar arruaceiros, criminosos e todos os envolvidos nos distúrbios à Justiça”. Milhares de policiais foram mobilizados para cumprir as ordens de busca e prisão contra cerca de 500 pessoas, com o apoio da guarda fronteiriça, de reservistas e do serviço secreto, o Shin Bet.

Até esta quinta, quando foi prorrogada por uma semana, a campanha chamada de “Lei e Ordem” já havia detido 348 pessoas e indiciado 263, de acordo com as autoridades locais. Aproximadamente 30 dos indiciados, afirma o Jerusalem Post, eram judeus. Os outros, cidadãos árabes de Israel.

A ofensiva das forças de segurança israelenses eleva a 1.938 o número de prisões desde que a escalada mais recente começou. Na terça, as autoridades estimavam que 70% dos 1.550 detidos até então fossem árabes-israelenses. A deputada da Lista Árabe Aida Touma-Sliman, contudo, afirma que o percentual real é mais próximo de 90% e que diversas pessoas foram detidas pelo Shin Bet e tiveram negado o acesso imediato a advogados.

Lideranças árabes-israelenses afirmam que esta é a onda mais acentuada de prisões políticas em décadas, desde ao menos o início da Segunda Intifada, em 2000. A maior parte dos detidos nesta semana são suspeitos de lançar pedras, coquetéis molotov e participarem de motins. Há também acusações de posse irregular de armas e ofensas violentas.

Trata-se, disse o presidente do Comitê dos Cidadãos Árabe-Israelenses, Mohammad Barakeh, de “uma campanha de intimidação e terror contra o público árabe para excluí-lo e justificar a repressão e a perseguição”. Para o grupo, o objetivo da operação maciça é punir cidadãos árabes que protestaram contra as políticas discriminatórias do Estado israelense e suas ações nos territórios ocupados.

A situação é particularmente tensa em Jaffa, onde um terço da população é árabe. A cidade hoje fica dentro dos limites de Tel Aviv, mas pelo Plano de Partilha da ONU, de 1947, seria um enclave do Estado Árabe no território de Israel — algo que nunca se concretizou após a guerra de independência israelense, em 1948.

Ao fim do conflito, cerca de 95% de seus moradores haviam sido expulsos. Os que permaneceram foram majoritariamente confinados ao gueto de Ajami, cercado com arame farpado, como refugiados. Lá foi erguido o complexo habitacional Amidar, de onde 300 famílias são hoje ameaçadas de despejo.

Há meses, protestos tomam a cidade contra o que afirmam ser uma política de Estado para expulsar os árabes da região. A situação é acentuada por grupos ultranacionalistas, cujo objetivo declarado é a “judaização” de Israel e que tentam tomar as casas de palestinos. Porém, desde a eclosão do embate mais recente entre o Hamas e Israel no dia 10, houve uma piora.

Segundo o Comitê de Emergência para a Defesa de Jaffa, a polícia vem adotando medidas que se assemelham a uma “ocupação militar”. Agentes patrulham a cidade com armas em punho, fazem perfilamentos de palestinos e realizam buscas sem mandado ou causa provável. Manifestações são dispersadas com gás lacrimogêneo e balas de borracha.

“A polícia não está protegendo os moradores de Jaffa, mas está os atacando física e mentalmente”, disseram duas integrantes do grupo, Yara Gharablé e Hana Amoury, em um artigo publicado pelo Haaretz, pedindo que o patrulhamento das ruas seja interrompido.

Violência policial
Hilal Habashi, de 29 anos, mora em Ajami, um bairro majoritariamente judaico de Jaffa. Ele contou ao GLOBO que, na semana passada, foi acordado de madrugada por um vizinho, também árabe, que teve o carro incendiado.

— Somos basicamente os únicos árabes do bairro e começamos a vigiar a vizinhança todas as noites — contou Habashi ao GLOBO. — Na noite em que ocorreu o incêndio, eu tinha ficado de vigília até as 3h da manhã e meus vizinhos, até as 4h30. Dois carros de polícia estavam a cem metros, mas não fizeram nada. É muito claro que Israel prioriza a vida e a propriedade do povo judeu em bairros mistos.

Habashi afirma que o uso da força excessiva virou norma na cidade. Dois dias atrás, policiais fizeram uma operação noturna em busca de jovens supostamente envolvidos nas manifestações das semanas anteriores. Uma amiga de Habashi teve a casa invadida e revistada pelas forças de segurança.

— Ela estava sozinha quando o grupo de cinco ou seis policiais chegou — contou Habashi. — Exigiram que ela saísse do quarto em três segundos e, apesar de ela ter pedido que esperassem que se vestisse, simplesmente arrombaram a porta e pegaram o celular dela, sem que ela pudesse registrar o que aconteceu ou pedir ajuda.

Outro amigo de Habashi teve o pulso fraturado por um agente durante uma batida policial quando saiu para pedalar. Uma marcha pacífica organizada por sua mãe, que é judia — o pai é muçulmano — também foi dispersada após ameaças de policiais armados, que disseram que usariam a força caso as cerca de 50 pessoas reunidas, árabes e judeus, não desistissem da manifestação.

— Chegamos num ponto em que sinto que não estou seguro aqui, que, se eu não me proteger com meus próprios meios, ninguém mais o fará — disse Habashi. — Não queremos ser o inimigo. Queremos a paz, queremos viver juntos. Mas, para isso, este precisa ser um Estado democrático que respeita todos os seus cidadãos e dá a todos direitos iguais. Hoje, o que temos é uma falsa democracia.

Política de governo
As ameaças de despejo de cidadãos árabes em Jaffa não são localizadas, mas parte de uma política do governo de Benjamin Netanyahu e sua base de extrema direita. Na quarta, por exemplo, uma audiência sobre a expulsão de 40 palestinos do bairro de Silwan, em Jerusalém Oriental, foi postergada.

O exemplo mais simbólico é o de Sheikh Jarrah, outro bairro do setor árabe de Jerusalém, ocupado por Israel após a Guerra dos Seis Dias, em 1967. Durante todo o mês de abril e agora em maio, a expectativa do veredicto sobre a expulsão de quatro famílias palestinas gerou protestos diários, não raramente reprimidos com violência, acirrando a tensão no país.

O estopim veio no dia 10, quando a polícia israelense usou gás lacrimogêneo e balas de borracha contra palestinos na Mesquita de al-Aqsa, na Cidade Velha de Jerusalém, o terceiro lugar mais sagrado para os muçulmanos. Centenas de pessoas ficaram feridas.

Em retaliação, o Hamas — movimento islamista que controla Gaza — lançou milhares de foguetes contra Israel, em sua maior parte interceptados pelo Domo de Ferro, o sistema antimísseis do país. Netanyahu respondeu com a maior ofensiva militar contra o enclave desde a invasão de 2014.

Em 11 dias, o conflito deixou ao menos 248 palestinos mortos, incluindo 68 crianças. Do lado israelense, 12 pessoas morreram até o cessar-fogo entrar em vigor na madrugada do dia 21 (noite do dia 20, no Brasil).

Simultaneamente, protestos tomaram os territórios ocupados e a pior onda de violência comunitária em anos explodiu em Israel, particularmente nas cidades mistas. O epicentro foi em Lod, no centro do país, que chegou a ser posta em estado de emergência.

Quatro judeus estão sob investigação por terem matado a tiros um árabe e ferirem diversos outros — segundo seus advogados, agiram em legítima defesa. Um homem judeu, por sua vez, morreu após ser atingido por uma pedra lançada por árabes. Para críticos e ativistas, contudo, as ações policiais maciçamente contra os árabes nesta semana apontam que o tratamento não é o mesmo para todos os cidadãos israelenses.

Segundo uma investigação do Haaretz, por exemplo, ao menos 20 pessoas que participaram de um ataque contra um homem árabe em Bat Yam, ao sul de Tel Aviv, podem ser identificadas por gravações — alguns deles, inclusive, deram entrevistas para a televisão. Ainda assim, apenas seis prisões foram efetuadas até o momento, duas delas após a reportagem — a polícia nega que esteja fazendo vista grossa e afirma que está investigando o caso.

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