Aplicação no México pode migrar para Brasil

Aplicação no México pode migrar para Brasil

A ameaça feita pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor tarifas sobre importações mexicanas pode fazer com que parte dos recursos de investidores estrangeiros migrem para o Brasil mesmo que essas medidas não se concretizem, avaliam analistas de mercado.

De acordo com eles, a advertência seria apenas mais um ponto a realçar as diferentes perspectivas para ambos os países no médio prazo.

Economias emergentes de tamanho semelhante, México e Brasil competem tradicionalmente pela alocação dos investidores estrangeiros. No entanto, o México tem um cenário mais desafiador para a economia que o Brasil, dizem. A pressão sobre a economia mexicana ficou ainda mais clara ontem com o rebaixamento do rating do país pela Fitch, de BBB+ para BBB, com perspectiva estável.

A Moody´s também anunciou sua decisão e manteve a nota em A3, mas definiu a perspectiva como negativa. Na passagem de abril para maio, analistas consultados pelo Banxico, o BC do México, rebaixaram de 1,5% para 1,35% a expectativa de expansão do PIB em 2019.

A revisão foi mais uma notícia negativa para o país, que enfrenta, entre outros problemas, a desconfiança dos agentes econômicos em relação às políticas heterodoxas do presidente Andres Manuel Lopez Obrador, e a própria perspectiva de desaceleração de seu principal parceiro comercial, os Estados Unidos.

Já o Brasil, embora exiba uma perspectiva de crescimento menor este ano 1,13%, segundo o último relatório Focus, do BC , voltou a apresentar certo otimismo com a aprovação da reforma da Previdência, após um início de ano turbulento.

`Esses fatores acabam favorecendo a percepção de que o Brasil está numa posição do ciclo econômico melhor que a do México`, diz Luciano Rostagno, estrategista-chefe do banco Mizuho para a América Latina. `Até porque passou por um momento muito difícil nos últimos anos, o Brasil pode se beneficiar dessas fricções entre EUA e México.

` Anunciadas na semana passada em retaliação à suposta falta de combate à imigração ilegal por parte do governo mexicano, as tarifas de 5% podem entrar em vigor já na próxima segunda-feira. Após uma reação inicial mais dura, os negociadores mexicanos cederam e concordaram, em reunião ontem em Washington, a deter um número específico de imigrantes sem documentação que tentam atravessar a fronteira.

Em viagem à Irlanda, Trump não participou do encontro. Na visão de Ilya Gofshteyn, estrategista macro global do Standard Chartered em Nova York, são poucas as chances de as tarifas vingarem, já que a oposição ao tema é grande em setores importantes da economia dos EUA. `Até o partido Republicano é contra`, nota Gofshteyn, para quem a implementação dessas medidas deve ser postergada e, no fim, descartada. `Neste ínterim, Trump poderá ao menos dizer que não recuou de suas ameaças`, diz.

Para o estrategista do Standard Chartered, a sombra das tarifas sobre as perspectivas do México deve elevar o prêmio de risco para os ativos locais, favorecendo a comparação com os concorrentes brasileiros. `O Brasil sem dúvida pode se beneficiar.

Não somente porque teve um desempenho mim nos últimos meses, mas também porque é um país pouco aberto ao comércio exterior e, por isso, tem reação menor às disputas comerciais do que o México, a Colômbia ou o Chile, por exemplo.` O tom mais conciliador de ambos os lados fez os mercados rebaixarem o risco de essas medidas serem concretizadas. No pregão de ontem, o dólar terminou de devolver o avanço de quase 3,5% ante o peso mexicano, que foi observado após o anúncio de Trump.

Contra o real, por outro lado, a moeda americana fechou em alta de 0,98%, aos R$ 3,8943, num movimento de ajuste após seqüência de três baixas. Vale dizer, de qualquer maneira, que ambos os mercados acabam se beneficiando da chance de corte de juros nos Estados Unidos. O cenário ganhou força nos últimos dias após declarações de dirigentes do Federal Reserve, que já parecem estar preparando o mercado para atuação mais expansionista, dizem analistas.

Tudo isso ajuda a derrubar o dólar no mundo e serve para atenuar momentos de nervosismo entre os investidores dos mercados emergentes. Apesar de a ameaça ter sido retirada dos preços, é possível que ela retorne caso o presidente americano decida arrastar a decisão final para perto de setembro, diz Gustavo Rangel, economistachefe para a América Latina do ING.

Nesse mês, vence o prazo para o Congresso americano aprovar o USMCA, acordo comercial que deve substituir o Nafta. `O grande risco é embolar o USMCA, mas não creio que isso ocorrerá. A pressão sobre Trump é grande.` Caso isso aconteça, Rangel prevê uma realocação de investimentos, mas apenas no portfólio financeiro. `O Brasil não é um bom substituto para o México no lado real da economia.

Os mexicanos exportam basicamente veículos para os Estados Unidos, e o Brasil não é competitivo nesse mercado`, ressalta. Outro fator que limita o movimento em direção ao Brasil é o fato de o país, ao contrário do México, não ter grau de investimento, nota Sacha Tihanyi, estrategista para mercados emergentes do banco canadense TD Securities.

A ausência do selo de bom pagador restringe a realocação de grandes fundos de renda fixa. A maior questão que pesa sobre essa perspectiva, notam os analistas, continua sendo a aprovação da reforma da Previdência. `É possível que o Brasil se beneficie do cenário mexicano, mas ainda vejo grande risco em relação à reforma, além dos fundamentos fracos`, diz Tihanyi.

You-Na Park, estrategista de câmbio do Commerzbank em Frankfurt, também mantém dúvidas em relação ao cenário para a reforma. `Uma vez que o risco de não aprovação ainda é alto, acredito que investidores permanecerão cautelosos em relação a ambos os países`, diz. Já Gofshteyn, do Standard Chartered, crê que a percepção começa a mudar.

`É verdade que o estrangeiro têm se mantido cético quanto ao Brasil. Isto é compreensível, dado o número de vezes que as promessas de reforma não se materializaram`, nota. `Mas vejo uma reversão dessa percepção, ainda que nos estágios iniciais.

A razão é que, enquanto México e outras economias estão caminhando para uma direção mim, no Brasil, o sentimento é o contrário, ainda que as coisas aí caminhem de forma devagar`, acrescenta.

www.prensa.cancilleria.gob.ar es un sitio web oficial del Gobierno Argentino