Apesar de divergências sobre Maduro, Brasil e Argentina concordam em ceticismo sobre tentativa de diálogo em Caracas

Apesar de divergências sobre Maduro, Brasil e Argentina concordam em ceticismo sobre tentativa de diálogo em Caracas

Para analistas, presidente da Venezuela se sente fortalecido e seu principal objetivo é isolar setor da oposição ligado a Juan Guaidó

Os governos do Brasil e da Argentina estão céticos sobre a nova tentativa de diálogo entre o governo do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e seus opositores, mediada pela Noruega. O assunto foi discutido por diplomatas dos dois países em almoço no Rio no início desta semana, quando foi celebrado o 30º aniversário da Agência Brasileira-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (Abacc). Embora com visões diferentes sobre a Venezuela — a Argentina reconhece o governo de Maduro e o Brasil não — tanto o chanceler brasileiro Carlos França quanto o argentino Felipe Solá avaliaram que, até agora, o Maduro não fez gestos contundentes que permitam um entendimento e, como quer o chavismo, a suspensão de sanções americanas, canadenses e europeias a Caracas.

A detenção, na semana passada, do líder opositor Freddy Guevara, um dos principais colaboradores de Juan Guaidó e peça central da estratégia de mobilização popular da oposição, foi considerada um erro grave que dificulta as conversas. No mesmo dia em que Guevara, que já passou mais de dois anos refugiado na embaixada do Chile, foi preso, Guaidó — que continua sendo considerado o presidente interino da Venezuela por Brasil, EUA e Reino Unido, entre outros países — foi perseguido até sua residência, em Caracas.

A tensão aumentou enquanto o governo Maduro organiza a eleição de governadores e prefeitos marcada para 21 de novembro, e com a oposição novamente dividida sobre participar ou não do pleito. Hoje, opositores governam quatro dos 23 estados venezuelanos (Anzoátegui, Táchira, Mérida e Nova Esparta). Líderes como Henrique Capriles são favoráveis à participação com condições, entre elas a presença de uma missão de observadores da União Europeia. Já Guaidó e o núcleo mais duro da oposição fazem exigências mais radicais, principalmente a convocação de eleições gerais, com a expectativa de tirar Maduro do poder.

Neste momento, está em Caracas uma missão exploratória da UE encarregada de avaliar se existem condições políticas e técnicas para trabalhar na Venezuela. Os enviados do chefe da diplomacia da UE, o espanhol Josep Borrell, sempre proclive a tentar um diálogo com o chavismo, já conversaram com autoridades eleitorais, políticas e militares. No bloco europeu, os governos da Espanha e Portugal estão entre os principais defensores de uma negociação com Maduro. Já Alemanha e Holanda têm posições mais duras. Mas, em todos os casos, a recente ofensiva de Maduro contra a oposição foi vista como uma demonstração de força que atrapalha o processo.

Silêncio americano
Os EUA de Joe Biden não fizeram anúncios importantes sobre a Venezuela até agora. A Casa Branca acompanha a iniciativa da Noruega, mas já deixou claro que a suspensão das sanções que mais asfixiam o país — nesta semana foram liberadas operações comerciais de gás liquefeito de petróleo, GLP — só ocorrerá caso “sejam produzidos avanços significativos com a oposição, para alcançar eleições confiáveis, inclusivas e transparentes”. Um recente comunicado de autoridades americanas, canadenses e da UE menciona, ainda, que as eleições devem ser “regionais, parlamentares e presidenciais”.

A sensação entre analistas é similar à expressada pelas Chancelerias do Brasil e da Argentina: Maduro sente-se fortalecido e não tem a menor intenção de ceder às pressões externas.

— A mensagem do governo ao prender Guevara é clara: com Guaidó e sua gente não tem chance de acordo, a menos que inclua negociar sua rendição, porque para o chavismo são traidores da pátria. Por outro lado, Maduro busca dividir a oposição e garantir um bom resultado nas eleições regionais — disse ao GLOBO Temir Porras, ex-vice ministro de Relações Exteriores do governo Hugo Chávez (1999-2012) e professor da Sciences Po, de Paris.

Quando muitos se perguntam se Biden será mais flexível com Maduro do que seu antecessor, Donald Trump, o ex-funcionário chavista pode dizer, por experiência própria, que até agora nada mudou. Semana passada, Porras fez uma escala em Miami e acabou ficando 24 horas preso e incomunicável. Autoridades migratórias americanas o interrogaram, confiscaram seu telefone e computador em busca de vínculos suspeitos. Finalmente, o ex-vice chanceler, que rompeu com Maduro em 2014 mas mantém diálogo com o governo e tem participação na tentativa de aproximação entre o Palácio de Miraflores e governos estrangeiros, foi deportado e proibido de entrar nos EUA por cinco anos.

— Biden não vai mudar a posição dos EUA sobre a Venezuela por causa da pressão interna de democratas como o senador Robert Menendez [presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado] e dos votos latinos da Flórida — afirma Porras.

Segundo ele, que viaja com frequência para Caracas, "é claro que as sanções afetaram muito o governo, mas houve uma adaptação, e hoje a Venezuela vive um lento processo de recuperação, com enorme desigualdade social". A economia foi dolarizada, o Estado, enxugado, e as portas do governo foram abertas para empresas estrangeiras e nacionais. Nesta semana, a vice-presidente do país, Delcy Rodríguez, reuniu-se com a cúpula da Fedecámaras, principal associação empresarial venezuelana e peça-chave do golpe contra Chávez em 2002. O encontro atraiu críticas de opositores e chavistas dissidentes.

Oposição dividida
Hoje, a realidade é que Maduro não está contra a parede e, se aceitou participar do processo mediado pela Noruega, avalia o analista Oswaldo Ramírez Colina, diretor da ORC Consultores, "é porque está, numa atitude absolutamente pragmática, em busca de mais liberdade econômica. Mas de forma alguma quer mais democracia".

Existe expectativa sobre uma rodada de conversas no México, depois de o governo de Andrés Manuel López Obrador ter se oferecido como anfitrião. O próprio Maduro confirmou a iniciativa e disse ainda ter proposto três condições para ir ao México: “Que os EUA e a UE suspendam as sanções, que todos os setores políticos reconheçam a validade e funcionamento dos poderes públicos e da constitucionalidade do país e suas autoridades legítimas, e que todos os setores envolvidos renunciem a planos violentos, golpes de Estado, magnicídio e outros caminhos violentos".

— A oposição, por sua vez, está dividida. Se as negociações demorarem, e a oposição não se organizar para a eleição, o chavismo ganha — frisa Colina.

Na visão de Luis Vicente León, diretor da Datanálisis, "os que pedem a cabeça de Maduro não têm nada em mãos para negociar". Há poucos dias, o presidente da Assembleia Nacional de maioria chavista, Jorge Rodríguez, deixou claro que "estamos dispostos a qualquer negociação sempre e quando sentem para conversar com o governo legítimo do presidente Nicolás Maduro".

— Todos estão medindo forças. O governo senta-se à mesa porque quer, não porque está obrigado. As eleições de novembro vão acontecer de qualquer maneira, e a questão é saber que setores da oposição vão participar para não continuarem perdendo espaços de poder — afirma León.

Ele e muitos analistas consideram a ofensiva repressiva de Maduro uma jogada para criar mais fissuras na oposição e favorecer o chavismo nas eleições. Para Guaidó, concluiu o diretor da Datanálisis, o resultado do pleito será crucial. Se houver uma participação expressiva da oposição não alinhada com o "presidente interino" e a abstenção não for elevada, como nas legislativas de 2020, quando só 30% votaram, o líder opositor será carta fora do baralho.

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