Antes `vermelhos`, bairros populares se dividem sobre apoio a Maduro

Antes `vermelhos`, bairros populares se dividem sobre apoio a Maduro

Grupos armados pelo regime chavista agora disputam controle das comunidades e fidelidades políticas

Caracas

Hoje, a situação é completamente outra. A Folha visitou algumas dessas comunidades, onde ocorreram os principais assassinatos da última semana, atribuídos por ONGs de direitos humanos a alguns coletivos, ao Faes e ao Conas, estes últimos esquadrões da morte que respondem ao Executivo.

A primeira conclusão é que não se pode generalizar a ação dos coletivos. Muitos ainda são chavistas, outros deixaram a atividade repressiva de lado e, por andarem armados, extorquem a população.

Outros, ainda, estão rebelados contra o governo e querem que a ditadura de Nicolás Maduro termine. Transformaram-se em polícias comunitárias.

Em Catia, estamos fazendo vigilância armada do alto dos morros, diz um deles, que não quis se identificar e nem tirar o capuz que vestia durante a entrevista à Folha.

Ele apontava para o alto de casas e ajudava a identificar seus soldados, de preto como ele, bandeira da Venezuela amarrada no braço.

Construímos esses muros com a desculpa de que eram para fazer propaganda do governo, mas na verdade é para impedir que forças do governo venham atirar na população, conta, sorrindo, como quem se orgulha de uma façanha.

De fato, o transeunte desavisado vê apenas imagens de Chávez, Maduro, slogans do governo. Isso é porque sempre que vêm reprimir aqui, a repressão é diferente da dos bairros ricos, onde apenas te levam preso. Aqui atiram contra casas, famílias, senhoras idosas, crianças. Chega disso.

Em 23 de enero, tradicional bairro vermelho onde inclusive está o mausoléu dedicado a Hugo Chávez (1954-2013) e que guarda seus restos mortais, a situação é ainda mais complicada.

Moradores da favela do Petare, em Caracas, descarregam cestas básicas - Meridith Kohut/The New York Times
Está havendo uma guerra interna entre os coletivos para ver quem controla a região e quem apoia ou é contra o governo, conta Jesus Salgado, 24, de uma ONG local.

Não creio que a motivação deles continue sendo política, como no princípio; é uma questão de quem lucra mais. O chavismo lhes deu armas, e com isso eles controlam negócios, bingos, discotecas, narcotráfico, prostituição, até mercados. Eles irão apoiar quem garanta que esse sistema continue funcionando.

Salgado conta que a participação popular nos protestos antiditadura sempre existiu, mas que as pessoas antes saíam da periferia para protestar em Altamira ou Chacao (bairros de classe média e alta).

Agora que ninguém respeita mais os coletivos, protestam aqui mesmo. Alguns coletivos reagem, matam, mas os jovens não têm medo e os enfrentam, enquanto os mais velhos fazem panelaço nas janelas. A maior parte dos mortos da última semana tinha entre 16 e 23 anos.

Salgado mostra uma cédula de panalito, uma moeda local que existe há cerca de um ano em 23 de enero. É um papel impresso com um valor e que serve para comprar produtos nos mercados locais.

As pessoas recebem seus bônus em bolívares e vão direto ao Banco Panal, uma casa improvisada onde os coletiveiros trocam o bolívar pelo panalito. É uma loucura porque todo mundo sabe que é um dinheiro ilegal, mas preferem isso a ficar com um bolívar na mão que vai desvalorizar em um dia.

E funciona. Acompanhada de Salgado, a Folha comprou mexericas com panalitos, aceitos sem o menor sinal de estranheza pelo vendedor.

Há muita gente que abandonou os coletivos, decepcionada com o governo. Porém, não devolveu suas armas.

Em bares, restaurantes e comércios, é comum topar com consumidores ou vendedores que têm um volume na parte da frente da camisa, ou enfiado nas calças por trás. Não é por menos que a média de assassinatos nessa zona é de cinco por semana.

Um dos principais desafios do chavismo, se quiser permanecer no poder, é trazer de volta a suas filas os ex-coletiveiros que agora se dedicam a suas atividades criminosas.

E o desafio da oposição, liderada por Juan Guaidó, é como desarmar essa população civil e reinseri-la na sociedade.

Lei prevê anistia a quem ajudar na mudança de governo
Caracas

A lei de anistia que a Assembleia Nacional já aprovou em primeira votação e ainda deve passar por uma segunda foi distribuída neste sábado (26) em panfletos por militantes dos partidos de oposição em vários pontos de Caracas.

Apoia-se no artigo 187 da Constituição vigente que diz que podem ser excluídos delitos ou infrações com a finalidade de reestabelecer a paz social e democrática e a concórdia nacional.

A Assembleia argumenta que a ativação desse recurso se faz necessário porque, neste primeiro mês de 2019 se aprofundou a ruptura da ordem constitucional, com o ditador Nicolás Maduro assumindo mais um mandato depois de eleições tidas pelos parlamentares como fraudulentas e irregulares, segundo diz o panfleto.

A anistia aprovada se estenderia a todos os funcionários civis e militares ligados ao governo que colaborem com a restituição da ordem constitucional da Venezuela.

Embora em sua apresentação em atos pela capital a lei esteja sendo aplaudida por antichavistas, há quem veja nelas falhas, por não terem sido ouvidas entidades de direitos humanos ou vítimas dos delitos cometidos pelo regime.

Para o analista político Mariano de Alba, por exemplo, a lei também deveria dar destaque aos direitos das vítimas, discutindo algum tipo de reparação pelo dano causado.

E acrescenta: essa anistia é muito ampla e soa pouco realista, creio que falta detalhar melhor em que casos a anistia seria total, e em que outros o que caberia seria uma redução de penas.

O líder opositor Juan Guaidó, que se juramentou como presidente encarregado do país, crê que essa amplitude da lei é necessária para que a transição ocorra.

Mesmo que a Assembleia Nacional aprove a lei, a ditadura Maduro considera suas ações nulas.

Desde que o Tribunal Supremo considerou que os parlamentares estão `em desacato`, nenhuma lei dos parlamentares foi implementada.

www.prensa.cancilleria.gob.ar es un sitio web oficial del Gobierno Argentino