Análise: Sob Ernesto, função do Itamaraty foi inflamar bases do bolsonarismo, vendo no conflito uma virtude

Análise: Sob Ernesto, função do Itamaraty foi inflamar bases do bolsonarismo, vendo no conflito uma virtude

19:20 - Com conquistas parcas e muitas pontes destruídas, política do chanceler demissionário só serviu para mobilizar base interna do governo

Quase vinte anos antes de se tornar ministro, Ernesto Araújo publicou três livros de fantasia, passados em uma terra imaginária crivada por guerras e heróis solitários. Em um discurso no Instituto Rio Branco em outubro de 2020, ele comparou a condução da política externa à atividade de um escritor.

— A diplomacia pode ajudar a libertar o pensamento, libertar a língua, libertar a grande nação brasileira e o próprio mundo, da pobreza material e da pobreza de espírito — afirmou.

Ao longo dos seus dois anos à frente do Itamaraty, ao lado de Eduardo Bolsonaro e de Filipe Martins, o agora demissionário Araújo, sob os aplausos e as ordens expressas do presidente, teve como prioridade propagar a ideia de que o Brasil era a ponta-de-lança de um suposto despertar espiritual do Ocidente.

Todo o resto — relações comerciais, décadas de esforços diplomáticos, acordos tecnológicos, influência em fóruns internacionais, vacinas — ficaria em segundo plano. Segundo suas palavras, o Brasil se tornaria um líder global a partir de valores ultraconservadores.

— Dentro dessa avaliação, poderia valer a pena sofrer perdas em termos comerciais ou de investimento, contanto que houvesse ganhos em termos ideológicos — disse Feliciano de Sá Guimarães, professor de Relações Internacionais da USP.

Em vez de agir como apaziguador de conflitos, função primordial da diplomacia, o chanceler demissionário agiu como um tradutor culto dos valores de Jair Bolsonaro, conferindo à retórica presidencial um suposto lastro tradicional.

Como o seu público eram as bases internas do governo — os cerca de 30% da população mais fiéis ao bolsonarismo — as fricções com outros países não deveriam ser atenuadas. Pelo contrário, havia mérito em acentuá-las, ou em “ser pária”, como disse Araújo no mesmo discurso em outubro.

— Historicamente, o Itamaraty cumpriu a função de escudo do presidente. Os diplomatas brasileiros sempre foram considerados excelentes por sua capacidade de falar como falam os estrangeiros, com as mesmas expressões. Os atuais embaixadores falam como bolsonaristas. O Itamaraty virou uma espécie de ministério da comunicação interna — disse Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da FGV.

Em termos concretos, suas conquistas são irrisórias. Sua principal aposta, a adesão total ao governo de Donald Trump, trouxe pequenas vantagens, sobretudo no começo do governo. O país, por exemplo, passou a ser considerado aliado extra-Otan dos EUA, o que lhe permite comprar equipamento militar americano velho a preços mais baixos (a Argentina desfruta desta condição há quase 30 anos, e praticamente nunca a usou). No fim do governo Trump, este manifestou, em uma carta, apoio à entrada do Brasil na OCDE — causa fora de cogitação hoje, com a vitória de Joe Biden.

O preço pela guinada radical, contudo, foi e será altíssimo. No governo Bolsonaro, o Brasil antagonizou com a China, perdendo capacidade de negociação em meio à maior crise global dos últimos 70 anos. Afastou-se das potências europeias, chegando aos escândalos de ofender a primeira-dama francesa e a chanceler da Alemanha.

O acordo entre o Mercosul e a União Europeia, obtido com o Brasil abrindo mão de demandas antigas, sem obter contrapartidas, mesmo assim ficou estancado, após países europeus se recusarem a ratificar o pacto justificando não quererem parceria com uma ameaça ambiental global. Regionalmente, o país perdeu a capacidade de liderança, sendo visto como um foco de instabilidade e preocupação.

Como mimos a Trump, o país prescindiu de condição especial conferida a nações em desenvolvimento na Organização Mundial do Comércio (OMC), abrindo mão de benefícios comerciais condizentes com sua estatura econômica. Também acirrou tensões com a Venezuela sem levar a vitória alguma, com o regime de Nicolás Maduro se tornando mais fechado.

Até a relação com os Estados Unidos naufragou, como a aliança explícita sempre foi com Trump, e não com Washington. O governo de Joe Biden tem motivos para não querer rifar totalmente o Brasil — ter um governo alinhado na América do Sul serve, por exemplo, para deter a influência regional chinesa —, mas abordará o país em condição de força muito mais preponderante, diante de um país isolado e sem prestígio.

— É difícil pôr numa hierarquia quais foram as piores apostas.Todas foram totalmente fracassadas — afirmou Letícia Pinheiro, professora de Relações Internacionais do Iesp/UERJ.— O Itamaraty cometeu uma série de erros estratégicos desde o início do governo Bolsonaro, como o alinhamento ao governo Trump. A política externa precisa ser pensada mais a longo prazo.

Conforme o Brasil se tornava um dos principais epicentros da pandemia, com a imagem do país já arrasada após os incêndios na Amazônia e no Pantanal de 2019 e 2020, Araújo se tornou ainda mais caricato, como por exemplo no discurso do presidente a empresários, em que, sorridente, aplaudiu Jair Bolsonaro xingando jornalistas.

Desde que Abraham Weintraub deixou o Ministério da Educação, Araújo se tornou o ministro mais popular nas bases extremistas do governo. Até este domingo, quando saiu atirando contra o Centrão, seu método sempre foi redobrar a aposta, observa Dawissón Belém Lopes, professor de Política Internacional da UFMG.

— Araújo estava tentando se tornar popular. Ia para churrascarias, participava da inauguração de pontes, tentando conquistar outro tipo de capital. O abatimento agora acontece bem no meio do voo, o que é muito duro para ele.

Ainda é cedo para saber se seu substituto terá o mesmo perfil que ele, ou se Bolsonaro tentará acomodar o Centrão, buscando equilibrar a animação de torcida com o mínimo de pragmatismo.

Sob Bolsonaro, contudo, há poucas chances de que sejam revertidos os estragos causados à imagem do país, concordam todos os especialistas consultados. Eles são unânimes em apontar, entretanto, que, se Araújo caiu, foi por pressões internas, e não porque o presidente estivesse insatisfeito com o seu trabalho. O retorno ao cenário eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva, impondo uma nova rivalidade ao governo, e a tentativa de ajuste com o Centrão tiveram muito maior impacto.

— Todos os seus gestos e decisões foram tomados muito em consonância com o próprio governo. Aquilo que julgamos como danos quase irreparáveis à política externa brasileira, em áreas como ambientalismo, direitos humanos, saúde global, relações bilaterais, são decisões do chanceler que foram aplaudidas por Bolsonaro e bolsonaristas. Não é por nada disso que ele caiu, mas em função do elemento estrutural da tragédia da pandemia — disse Carlos Milani, professor de Relações Internacionais do Iesp/UERJ.

Para o embaixador aposentado Rubens Ricupero, Araújo é um “pobre diabo”.

— Ernesto Araújo é péssimo, mas não o principal responsável pela destruição. O principal responsável é o próprio presidente, e, em seguida, seu filho, Eduardo Bolsonaro — disse Ricupero. — Há um elemento de certa hipocrisia no Senado em concentrar toda a crítica a Ernesto, porque trata-se de um sujeito sem poder algum. Nunca fizeram nada parecido em relação ao próprio Eduardo.

O destino do próprio Araújo é uma incógnita, pois é incerto se o Senado aprovaria sua indicação para qualquer embaixada que fosse. Para além da agitação das bases, seu legado, seja responsabilidade sua, seja do próprio presidente, é de estragos enormes.

— O Brasil tornou-se o epicentro da epidemia, é uma ameaça em termos de mudanças climáticas devido à devastação da Amazônia, e também às democracias ocidentais, ao adotar a ideologia da mais radical extrema direita americana. — disse o embaixador aposentado Roberto Abdenur. — A destruição começou antes do primeiro dia do governo e segue até hoje. O que resume a condição do Brasil é a expressão pária.

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