Análise: Cúpula virtual evidencia tensões e aprofunda dúvidas sobre o futuro do Mercosul

Análise: Cúpula virtual evidencia tensões e aprofunda dúvidas sobre o futuro do Mercosul

18:23 - Bolsonaro falou para o público interno e enfatizou interesses do seu governo, enquanto o argentino Fernández insistiu em integração regional como plataforma para ação global

Janaína Figueiredo e Eliane Oliveira

RIO E BRASÍLIA - A primeira cúpula virtual de chefes de Estado do Mercosul, realizada em momentos em que América Latina, com o Brasil à frente, é um dos epicentros mundiais da pandemia do novo coronavírus, ao lado dos Estados Unidos, evidenciou ontem as profundas diferenças entre seus membros, e confirmou a delicada crise em que se encontra o bloco.

Enquanto o presidente Jair Bolsonaro fez um discurso voltado para o público interno, no qual prometeu ações para "desfazer opiniões distorcidas sobre o Brasil", o argentino Alberto Fernández apelou aos grandes heróis da independência latino-americana, entre eles o venezuelano Simón Bolívar, para pregar a integração como melhor saída à crise econômica decorrente da pandemia.

Ontem, as diferentes visões de mundo dos dois principais sócios fundadores do Mercosul foram postas sobre a mesa. Em matéria econômica, Uruguai e Paraguai se mostraram alinhados com Brasil, sobretudo na defesa de avançar rapidamente em acordos de abertura comercial.

A tensão entre Bolsonaro e Fernández foi notória, com o brasileiro explicitando as divergências com a Argentina sobre a situação na Bolívia e na Venezuela. Neste último ponto, Bolsonaro foi respaldado pelo colega da Colômbia, Iván Duque, que fez um duro discurso sobre a situação política venezuelana e reiterou que para seu governo o país vive uma ditadura nas mãos de Nicolás Maduro.

Duque lembrou o fracasso da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), projeto que Fernández até hoje defende, e destacou o lançamento, em 2019, do Foro para o Progresso e o Desenvolvimento da América do Sul (Prosul), ao qual a Argentina não aderiu. A Colômbia é membro associado, e não pleno, do Mercosul, assim como Chile e Bolívia.

A conciliação de posições é tão complicada na agenda econômica como na política. Em seu discurso, Bolsonaro referiu-se, essencialmente, aos interesses de seu governo. Pediu que seja feito um esforço para que os acordos com a UE e o Efta (bloco formado por Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein) sejam assinados ainda em 2020, e frisou que está decidido a tornar o Brasil mais atraente para receber investimentos internacionais.

Um dos últimos a discursar, como convidado, foi o chefe da diplomacia da União Europeia, Josep Borrell, que mostrou-se otimista sobre o acordo com o Mercosul, mas, num recado que pareceu destinado ao governo brasileiro, defendeu o fortalecimento do multilateralismo e cobrou respostas coletivas para o enfrentamento da pandemia.

O agora presidente pro tempore do bloco, o uruguaio Luis Alberto Lacalle Pou, adotou uma posição mediadora, assegurando que "o Mercosul avançou... mas devemos trabalhar para aperfeiçoá-lo". Em sintonia com Bolsonaro, pediu rapidez nas negociações comerciais externas, mas, diferenciando-se do brasileiro e sua aproximação com o americano Donald Trump, defendeu que o bloco ganhará mais se ficar equidistante da disputa entre Estados Unidos e China.

A cúpula número 56 do Mercosul foi rápida, sem grandes emoções e reiterou as incertezas sobre o futuro do bloco.

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