Análise: Chanceler muda, mas a cara do Brasil no exterior é o presidente

Análise: Chanceler muda, mas a cara do Brasil no exterior é o presidente

15:23 - Na Europa, a resistência maior está relacionada a posições de Jair Bolsonaro em matéria de meio ambiente, péssima gestão da crise sanitária e agenda de valores (direitos humanos, proteção dos povos indígenas etc.)

A queda de Ernesto Araújo do posto de ministro das Relações Exteriores, que pode ser confirmada nas próximas horas, não altera várias dificuldades que o Brasil enfrenta na Europa, e que tendem a continuar complicando negócios e relações com parceiros.

Na Europa, o problema maior tem a ver com o presidente Jair Bolsonaro e não com o estilo de seu chanceler. A resistência maior está relacionada a posições de Bolsonaro em matéria de meio ambiente, péssima gestão da crise sanitária, agenda de valores (direitos humanos, proteção dos povos indígenas etc.).

Por si só, pelo menos na percepção de democracias ocidentais, a troca de chanceler apenas não resolve, portanto, o problema da imagem tóxica do atual presidente do Brasil.

No entanto, um chanceler poderia ajudar a matizar essa imagem. Mas, para isso, precisa conseguir modular certas posições e discursos confrontacionistas, abrasivos e obscurantistas de Bolsonaro e seu governo.

A questão que se coloca sobre o futuro ocupante do Itamaraty é se ele vai serum novo Ernesto Araújo ouRicardo Salles,que acentuam o estilo mais polêmico de um presidente já altamente desrespeitado no exterior. Ouse tenderá a seruma Tereza Cristina, a ministra da Agricultura, conservadora com imagem mais equilibrada na cena internacional.

Pelo contexto atual, com Bolsonaro quase nas cordas, seria de se esperar do próximo chanceler brasileiro ser uma espécie de Tereza Cristina das relações exteriores. E, como porta-voz no plano internacional, possa o novo chanceler, ao contrário de Ernesto Araújo, modular o lado ideológico e mais contencioso do presidente e aliados próximos.

Chanceler acidental

A avaliação em círculos na Europa, que conhecem bem o Brasil, é de que é muito improvável que Jair Bolsonaro fizesse necessariamente questão que Ernesto Araújo repetisse certas posições dele, como atritos com a China e o reforço da agenda polêmica da ministra Damares Alves.

Araújo não precisava fazer o que fez. Mas, sendo um chanceler acidental, ele ecoou o radicalismo, ao invés de moderar as posições mais extremas do governo. Fez do Itamaraty uma plataforma para agradar a base dura do bolsonarismo e dos filhos do presidente.

Outra questão importante é se o novo chanceler vai ser capaz de frear a influência dos filhos de Bolsonaro, sobretudo Eduardo, na política externa. Ao longo de pouco mais de dois anos, Araújo nunca escondeu que Eduardo, bastante despreparado, tinha um peso decisivo na agenda internacional do país.

Se a influencia radical de Eduardo não for contida, será difícil imaginarque um novo chanceler, seja quem for, consiga alterar a imagem fortemente deteriorada do presidente e do Brasil no exterior.

Na Europa, a questão mais importante para a imagem do Brasil envolve proteção do meio ambiente. Mudança de chanceler, portanto não altera em nada a percepção europeia nesse tema. A manutenção de Ricardo Salles como ministro de Meio Ambiente não ajuda. Ele cumpre, de maneira mais discreta, o mesmo papel de acentuar o radicalismo. Contribui para a percepção já fortemente negativa sobre Bolsonaro e o país. As dificuldades para aprovação do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul, e para a negociação de entrada na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Economico (OCDE) não melhoram em nada com a simples mudança de ministro das Relações Exteriores.

Além disso, desde 2014 a União Europeia não faz a cúpula anual com o Brasil prevista na parceria estratégica. E é algo que a troca de chanceler tampouco resolve, porque o problema é que as lideranças europeias não querem aparecer ao lado de Bolsonaro.

Em alguns casos, não relevantes e meramente ideológicos, é perfeitamente possível que um novo chanceler possa atenuar posições do governo, para menos militantes e mais sóbrias. Pode conter excessos como a forte proximidade com os governos da Hungria e Polônia, com pouca relevância internacional e imagem igualmente desgastada na Europa.

Um novo chanceler, dependendo de seu perfil, pode até minimizar o estrago que leva o país a ser chamado de pária na cena internacional. Mas a cara do Brasil não é o chanceler, é o presidente.

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