Análise: Aproximação de Moraes do financiamento de atos explica recuo de Bolsonaro

Análise: Aproximação de Moraes do financiamento de atos explica recuo de Bolsonaro

19:45 - Com a fuga de Zé Trovão, o ministro Alexandre de Moraes puxou mais um fio deste novelo sobre o financiamento dos atos bolsonaristas, Também por isso o caminhoneiro publicou um vídeo tentando se descolar de Bolsonaro

Na mesma tarde em que o presidente Jair Bolsonaro mandou um jatinho a São Paulo para buscar o ex-presidente Michel Temer, Marcos Antônio Gomes, o Zé Trovão, fez uma manobra para se descolar do Palácio do Planalto.

Do encontro com Temer saiu um telefonema entre o presidente e o ministro Alexandre de Moraes, que foi ministro da Justiça do ex-presidente e por ele indicado à Corte. Saiu ainda uma nota de recuo em relação às agressões feitas por Bolsonaro no 7 de setembro ao ministro. Consta que Moraes foi protocolar no telefonema. Mais ouviu que falou.

Nesta nota, sem pedir desculpas, Bolsonaro disse que, em que pese as “divergências” com o ministro Alexandre de Moraes, não desconhecem suas qualidades como “jurista e professor”. Acrescentou ainda que suas questões com o ministro serão tratadas por meio de medidas judiciais no âmbito do Artigo 5 da Constituição que estabelece, entre outros preceitos, o da liberdade de manifestação.

Concomitantemente, do Telegram do caminhoneiro Zé Trovão começaram a pipocar vídeos em que ele passou a tentar se distanciar de Bolsonaro. Primeiro fez um vídeo de despiste para dizer que havia sido localizado no México e que iria se entregar. Em seguida fez outro dizendo que havia fugido de novo e fazendo um apelo para que seus seguidores ocupassem Brasília não mais com faixas com o nome de Bolsonaro, mas pelo impeachment de Alexandre de Moraes.

Na opinião de fontes que acompanham os inquéritos que investigam o financiamento dos atos bolsonaristas e de suas redes sociais, o ministro Alexandre de Moraes puxou, com a fuga de Zé Trovão, mais um fio deste novelo. Daí a tentativa de o caminhoneiro se descolar de Bolsonaro. Tenta dissociá-lo desse fio puxado pelo ministro. Tão difícil quanto esta dissociação, é aquela que envolve o vereador Carlos Bolsonaro na trama.

Trovão teve sua prisão decretada por Moraes junto com a do blogueiro Wellington Macedo na sexta-feira, dia 3. O blogueiro foi preso, mas Trovão fugiu. Não é uma operação trivial uma fuga dessas. Daí o interesse em descobrir quem a financiou e quem o mantém a salvo das autoridades que o procuram no México ou alhures.

Não é o único trajeto entre os dois hemisférios de aliados bolsonaristas investigados pelo gabinete de Moraes. A delegada da Polícia Federal que atua no inquérito conduzido pelo ministro, Denisse Dias Rosas Ribeiro, também está na cola, com a colaboração de autoridades americanas, do financiamento do jatinho que trouxe o empresário Jason Miller ao Brasil.

O empresário, que fundou a plataforma GETTR com o objetivo de levar o expresidente Donald Trump de volta às redes sociais, assessorou o ex-presidente americano. Ele foi palestrante da Conferência de Ação Política Conservadora, organizada pelo deputado Eduardo Bolsonaro no fim de semana em Brasília, e visitou o presidente da República. No dia das manifestações Miller foi levado para depor na Polícia Federal por determinação de Moraes mas exerceu seu direito ao silêncio.

Pessoas próximas a Moraes dizem que não há hipótese de o ministro recuar. As ameaças bolsonaristas chegaram à esposa advogada e aos filhos do ministro, estudantes de direito em São Paulo.

Uma atitude mais concreta que a nota teria sido um recuo em relação ao pedido de impeachment de Moraes, que só não foi em frente porque o presidente do Senado arquivou. O presidente, porém, silenciou sobre o tema na nota.

A participação de Temer na triangulação com Moraes desgostou aliados. Eles não apostam que Bolsonaro vá abandonar o discurso com o qual mantém mobilizada uma fatia que calculam em 15% do eleitorado sem quaisquer garantias de que será capaz de reconquistar aquela, mais graúda, que perdeu desde a eleição.

Temer também tem sido pressionado por aliados a levar o MDB a engrossar o impeachment. Ao atender ao pedido de Bolsonaro, Temer parece apostar no posto de mediador. Resta saber por quanto tempo e com quem, visto que o isolamento do presidente no Judiciário e no Congresso só cresce.

Nem mesmo seus principais interlocutores na política, o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, e o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), têm sido capazes de evitar este insulamento. Nogueira caiu no descrédito ao engrossar o discurso dos ministros militares de que o Supremo exagera em relação a Bolsonaro.

Sobre Lira cresce a percepção de que a blindagem na qual está empenhado não é apenas de Bolsonaro mas de si próprio. Se der vazão a um pedido de impeachment, pode não escapar da mira de uma investigação da Procuradoria-Geral da República em relação às condições nas quais se deu a tramitação — e aprovação — de medidas como a privatização da Eletrobras. Como suas trapalhadas não ultrapassam o presidente ainda se vêm com autoridade para cobrá-lo contenção para segurar o Centrão ao seu lado e o mercado que ameaça derreter.

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