A agonia do crescimento econômico

A agonia do crescimento econômico

Na esteira do derretimento das projeções de mercado, o governo já trabalha com números menores para a economia brasileira neste ano. A estimativa de 2,5% de expansão ficou distante, e um número próximo de 2% deverá ser formalizado. A queda de 0,41 % do IBC-Br (prévia do PIB calc ulada pelo Banco Central) acendeu definitivamente o alerta, colocando no radar o risco de mais um ano frustrante.

O desânimo que começa a transparecer com o nível cie atividade contrasta com o relativo otimismo que ainda se observa em alguns ativos financeiros, como ações e juros. Não que a estimativa de 2,5% de crescimento fosse algo empolgante. Afinal, o país vive a mais lenta recuperação de uma crise em sua história, tem 12,7 milhões de desempregados e precisava crescer muito mais.

Preocupa especialmente o fato de o pessimismo que se instala com a economia real começar tão cedo no contexto de um governo que chegou ovacionado pelo empresariado e cujo chefe da Economia tem sido tratado com grande deferência pela maior parte dos analistas.

Paulo Guedes e sua equipe, contudo, não parecem demonstrar muita preocupação com a continuidade da letargia econômica. A tese, de acordo com os economistas do governo, é que a fase de atuar em ações de curto prazo para dar algum estímulo ã demanda ficou para trás.

Agora, entendem, é trabalhar o lado da oferta e aprovar medidas que trarão de volta o crescimento sustentável de longo prazo, aceitando o que vier no curto prazo. A primeira dessas ações estruturais é a reforma da Previdência, que, para o governo, removeria a incerteza fiscal e injetaria uma onda positiva de expectativas e investimentos, sobretudo estrangeiros, impulsionando o PIB.

Para Gilberto Borça Júnior, do grupo de conjuntura macroeconômica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a atuação pelo lado da oferta é de fato necessária, mas tem impacto na capacidade de crescimento de longo prazo do país. Isso, contudo, não eliminaria a necessidade de atuação pelo lado da demanda, que afeta a economia no curto prazo.

Diante das limitações fiscais decorrentes do elevado déficit primário e do teto de gastos, bem como da falta de instrumentos parafiscais (como liberação do FGTS ou uso de bancos públicos), Borça Júnior aponta que só sobrou a política monetária para dar algum impulso à demanda. Por isso, ele ataca diretamente a decisão do BC de manter os j uros em 6,5% ao ano, nível em que segue estacionado há um ano. O economista lembra que a autoridade monetária já errou por dois anos seguidos, deixando a inflação bem abaixo da meta. `Não fosse a greve dos caminhoneiros no ano passado, o IPCA poderia ter furado o piso da meta.

No inverso, certamente o BC já teria subido os juros.` Diante do argumento de que a queda da Selic de 14,25% para 6,5% não tenha sido capaz de promover uma expansão mais acentuada do PIB, Borça Júnior aponta que esse seria um raciocínio falacioso. Para ele, com a inflação, as expectativas e os núcleos (que descontam oscilações maiores de preços) todos abaixo da meta, não reduzir o juro, independentemente dos efeitos vistos até agora, é um erro que custa crescimento e empregos, além de implicar em custo fiscal maior para o governo.

O economista reconhece que, diante da incerteza elevada, é possível que a política monetária tenha perdido potência. Mas isso, entende, só reforçaria a necessidade de se aproveitar o espaço dado pela inflação baixa para recuar mais a Selic e tentar dar algum fôlego para a economia brasileira.

Na situação atual, aponta Borça Júnior, as projeções na casa de 2% ou ligeiramente acima disso, como indicam governo e mercado, já soam como otimistas. Ele estima que o PIB do primeiro trimestre ficará estável, o que indica que, para o país crescer 2% no ano, a taxa de expansão nos períodos seguintes do ano precisaria ter ritmo anualizado da ordem de 4%.

O alerta do economista sobre o risco de o Brasil ter o terceiro ano de crescimento na casa de 1% não deve ser desprezado. O Brasil precisa de mais tração em seu lado real e não dá para ficar só na esperança dos efeitos mágicos da fada da confiança após a reforma da Previdência, se é que (e esse é um grande se) ela será aprovada pelo Congresso.

Apesar da convicção de Paulo Guedes de que não cabem estímulos de curto prazo e da escassez de instrumentos de atuação, ignorar os impactos negativos da continuidade de uma pífia atividade pode custar caro para as pretensões da equipe econômica. Os números da pesquisa Ibope mostrando uma rápida deterioração da popularidade do governo e do presidente Jair Bolsonaro deveriam ser vistos como sinal de alerta, se o drama de quem não consegue achar emprego não sensibiliza tanto o atual czar da economia brasileira.

Não se trata de uma escolha entre populismo e ortodoxia. Entre os dois pontos ainda há possibilidades a explorar com responsabilidade e cuidado. O mandato das urnas garante o direito de o governo aplicar uma política liberal nos próximos quatro anos e reduzir o Estado. Mas flertar com o prolongamento do drama do desemprego estratosférico por puro apego ideológico é um erro em muitos sentidos.

Nada é mais velha política do que corporativismo. A sentença é do deputado Samuel Moreira (PSDB-SP), ex-secretário da Casa Civil do governo Geraldo Alckmin ao comentar a proposta de reforma da Previdência dos militares feita com uma generosa reestruturação de carreiras. Membro da CCJ, a primeira comissão da Câmara a examinar a reforma de Jair Bolsonaro, Moreira acredita que a medida vai aumentar o embate político em torno da reforma, o que já será percebido nessa primeira etapa de análise.

O parlamentar tucano defende a realização da reforma previdenciária, mas ataca o conceito de categorias especiais. Para ele, questões relativas a categorias específicas de trabalhadores devem ser tratadas no âmbito do trabalho, e não da aposentadoria, ou seja, com melhores salários e condições laborais, e não em privilégios para se aposentar. Esse, aponta, foi um dos erros da reforma do governo anterior que, com aspectos próprios, já aparecem na reforma de Bolsonaro.

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