Agitação social no Chile deixa totalmente aberta a eleição presidencial

Agitação social no Chile deixa totalmente aberta a eleição presidencial

Apesar de o pré-candidato comunista ter sido eliminado nas primárias, incerteza ainda paira sobre a corrida presidencial. O resultado é imprevisível pela economia prejudicada pela pandemia e a influência da Assembleia Constituinte

Os investidores suspiraram aliviados quando o comunista Daniel Jadue, um dos dois favoritos para vencer a disputa presidencial do Chile em novembro, foi eliminado nas eleições primárias de sua coalizão no mês passado.

Mas uma enorme incerteza ainda paira sobre a corrida presidencial, a primeira desde que os massivos protestos de 2019 deram início a uma transformação pacífica do Estado chileno, conforme o poder passa das elites tradicionais para uma geração mais jovem. Com a economia prejudicada pela pandemia, o resultado é imprevisível, até por causa da influência que uma Assembleia Constituinte com a tarefa de redigir uma nova Constituição pode ter nas eleições.

Na esquerda, Gabriel Boric, de 35 anos, que ganhou fama há uma década, durante os protestos estudantis contra a desigualdade na educação chilena, garantiu mais de 1 milhão de votos nas primárias da principal coalizão, enquanto Jadue teve 693 mil. Na direita, Sebastián Sichel, de 44 anos, ex-ministro do Desenvolvimento Social do presidente Sebastián Piñera, ganhou a indicação de sua coalizão com apenas 660 mil votos, de um total de 1,3 milhão. Em um país de 19 milhões de habitantes, as primárias costumam ser bons termômetros para a disputa presidencial.

“Pode ser que isso não dure, mas Boric tem embalo”, disse Patricio Navia, cientista político da Universidade de Nova York. Ele destacou que nas primárias de 2017 a direita recebeu três vezes mais votos do que a esquerda, o que prenunciava o retorno de Piñera ao poder.

Outros fatores favorecem a esquerda. Após a turbulência social de 2019 que quase levou ao colapso o governo hoje profundamente impopular de Piñera, ex-magnata da aviação, “a direita está em frangalhos”, segundo Navia. “Quem quer que seja visto como próximo a Piñera está condenado.”

Ainda assim, a corrida presidencial está totalmente em aberto. O primeiro turno da eleição, em novembro, pode ter até meia dúzia de candidatos, possivelmente tanto à esquerda de Boric quanto à direita de Sichel, e haverá ao menos um concorrente do altamente disputado centro.

Yasna Provoste, popular centrista que preside o Senado, lançou sua candidatura há 10 dias.

Outro elemento de incerteza na campanha é a nova Assembleia Constituinte, que iniciou em julho seus trabalhos para a elaboração de uma Constituição que substitua a imposta durante a ditadura do general Augusto Pinochet. Essa reforma é a vitória mais palpável dos manifestantes de 2019 até agora.

Para Robert Funk, cientista político da Universidade do Chile, essa Assembleia é a “maior ameaça, sem dúvida”. Sua presidente e seus membros “parecem empenhados em promover a narrativa de que são verdadeiramente representativos da população chilena”, disse.

Isso provavelmente colocará sob pressão seja quem for eleito a agir em conformidade com eles por medo de retaliações - a nova Assembleia pode, por exemplo, reduzir os poderes da Presidência na nova Constituição. Os chilenos devem votar o novo texto em um plebiscito no ano que vem.

Boric pode sentir-se inclinado a atender seus eleitores de esquerda para manter os defensores da Assembleia a seu favor. Ao mesmo tempo, Sichel terá de vencer adversários da extrema direita - analistas alertam que José Antonio Kast pode derrotá-lo no segundo turno, em dezembro, se ele se deslocar muito para o centro. Isso torna difícil para qualquer um dos dois buscar o apoio dos eleitores de centro de forma mais enfática.

Antes de sua eleição como presidente da nova Assembleia, a mapuche Elisa Loncón, ativista dos direitos indígenas e acadêmica respeitada, disse ao jornal “La Tercera”: “É possível dialogar conosco, não precisam ter medo de nós.”

A questão, segundo Funk, é saber se a ênfase da Assembleia em identidade, diversidade e independência política “pode tornar impossível chegar a um acordo real sobre qualquer coisa”. Tudo isso poderia deixar o novo presidente eleito com muito menos margem de manobra.

As incertezas significam que os investidores continuarão cautelosos. A socióloga Lucia Dammert disse que houve uma renovação dos líderes da classe política chilena, que reflete o tipo de mudança que os chilenos podem desejar para seu país. “Mas ainda é cedo para dizer se essas são coordenadas sólidas ou parte de um processo.

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