2021 seria difícil mesmo sem Bolsonaro

2021 seria difícil mesmo sem Bolsonaro

Economia sofre duplo choque da grande segunda onda da Covid-19 e atraso da vacinação, com repercussões sociais, dificuldade fiscais e queda de popularidade presidencial. E, para piorar, temos Bolsonaro no comando.

O ano de 2021 se afigura como uma difícil transição para Jair Bolsonaro. Com sua aproximação com o Centrão, o presidente tem possibilidade de se sair bem na eleição da presidência da Câmara e do Senado. Se acontecer, será um trunfo num ano em que enormes problemas devem se acumular.

A popularidade de Bolsonaro já dá sinais de estar caindo neste início de ano. Ela ainda está longe de níveis críticos, mas o movimento corrobora a percepção de que seu prestígio foi inflado pelo auxílio emergencial, e agora reage ao fim do benefício.

É vital para o presidente que a retomada econômica substitua em boa parte o desmame da economia dos programas de apoio a famílias e empregos que a sustentaram no ano passado. O mercado de trabalho é parte crucial dessa equação.

Mas o ano começa com duas notícias muito ruins, já comentadas neste espaço. A segunda onda da Covid-19 corresponde ao pior cenário desenhado quando esse risco se materializou no último trimestre do ano passado.

A média diária de mortes confirmadas em sete dias pela doença está pouco abaixo de 1000, e com aparente tendência de alta. No pico da primeira onda, essa média roçou 1.100 óbitos diários no final de julho. Como se vê, estamos próximos do pior momento do ano passado.

A segunda má notícia é constatação de que a vacinação no Brasil tem grandes chances de atrasar em relação ao cronograma imaginado no final do ano passado. Índia e China retêm vacinas e o insumo básico para a sua fabricação, devido à explosão da demanda global.

Apesar de integrarem o grupo BRICS com o Brasil, os dois colossos asiáticos não têm como ser forçados a colocar o Brasil na frente da fila. A péssima gestão do governo federal da compra de vacinas como um todo, e das relações com a China em particular, piora a situação.

Com as contaminações e mortes pelo coronavírus avançando, e sem a perspectiva de que uma vacinação rápida aborte essa tendência a curto prazo, a sociedade vai reagir de uma forma ou de outra. As cenas horripilantes de moribundos asfixiados em Manaus, sem acesso a oxigênio, redespertaram o terror do coronavírus entre governados e governantes em todo o País.

Há uma absoluta fadiga de isolamento social em todos os recantos do Brasil, e não se imagina que haverá um retorno ao lockdown extremo do segundo trimestre, que destroçou o PIB.

Mas alguma reação defensiva haverá, seja das pessoas e famílias individualmente, seja de determinados governos municipais ou estaduais que, em determinados momentos, se sintam particularmente vulneráveis à evolução da segunda onda.

Esse movimento deve tirar o gás do aspecto mais importante da retomada econômica do último trimestre de 2020, que foi um sopro de animação no setor de serviços – não só o maior do PIB, com cerca de 65% a 70%, mas também aquele, de longe, mais afetado pelo distanciamento social da pandemia.

O setor de serviços também é o grande empregador da economia, e particularmente decisivo para os informais, os órfãos do auxílio emergencial.

2021 será mais um ano “interessante” nas relações entre Executivo e Legislativo no Brasil. Vários dos candidatos à presidência da Câmara e do Senado já sinalizaram que vão tentar ressuscitar alguma forma de auxílio emergencial a partir da volta aos trabalhos no Congresso em fevereiro. Nem que seja por pouco tempo, só para escorar os vulneráveis em meio à segunda onda.

Seria até possível pensar de forma racional num benefício passageiro, que não comprometesse a volta à normalidade fiscal em 2021.

Mas se sabe que não tem sido assim que funciona a política brasileira. O valor de R$ 600 da fase inicial do auxílio emergencial foi fechado num “leilão” entre o Executivo e o Legislativo para ver quem era mais compadecido das agruras do povo.

Por “serendipidade” (buscar uma coisa e achar outra, melhor, por sorte), a potência do auxílio acabou ajudando o Brasil a ter um recuo do PIB em 2020 menor que a média da América Latina.

Mas esse é apenas um lado da questão. A conta do salto de endividamento do Brasil (também maior do que o de nações de nível parecido de desenvolvimento) será paga ao longo de anos e décadas, inclusive por gente que nem nasceu ainda.

Mas essa é uma discussão ociosa. O que importa agora é que, caso uma reedição do auxílio seja improvisada por alguns meses, por liderança do Legislativo, não se sabe se o resultado será racional ou irracional em termos fiscais.

É essa dúvida que faz o mercado ficar de pelos eriçados sempre que algum candidato à presidência das Casas do Congresso fala de preencher de alguma forma o vácuo deixado pelo auxílio emergencial. Esses políticos costumam frisar que tudo será feito com responsabilidade fiscal. Na prática, porém, não é o que se observou no Congresso em episódios passados.

O problema é que o medo do mercado tem custo econômico e social. O risco piora, a moeda deprecia e, principalmente, a curva de juros empina. Nada disso é bom para a recuperação econômica no atual estágio. Nem para o mercado de trabalho.

O cobertor, portanto, é curto. Mais transferências agora podem aplacar o sofrimento social provocado pela segunda onda, mas podem, por outro lado, contribuir para esfriar a economia, levando a mais sofrimento social por outras vias.

Tudo isso bate e rebate na popularidade de Bolsonaro, e interage com a governabilidade e a capacidade do seu governo de tocar uma agenda econômica mais robusta.

Para piorar, a situação orçamentária de 2021 já é extremamente crítica, com um espaço ineditamente diminuto para investimentos e custeio administrativo, tendo em vista o cumprimento do teto de gastos.

O risco de shutdown de partes importantes da máquina pública é alto. E ainda não se tem muita ideia de como se acomodarão as despesas ligadas diretamente à pandemia, na área de saúde pública e na campanha de vacinação.

Se Bolsonaro fosse um presidente minimamente competente, já seria correto dizer que atravessar 2021 de forma bem sucedida constitui um desafio dificílimo. Sendo Bolsonaro quem é, melhor não dizer nada.

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