0 desafio dos bancos centrais é evitar a deflação´

0 desafio dos bancos centrais é evitar a deflação´

Uma série de dados econômicos divulgados na semana passada trouxeram de volta os temores de uma recessão nos Estados Unidos, gerando forte volatilidade nos mercados globais.

Mas, na opinião de Marzo Bernardi, chefe global de serviços a clientes da Western Asset, a crise não deve chegar antes do fim do ano que vem. Em entrevista ao Valor, o economista disse que os dados preocupam, mas que não acredita que o ciclo de crescimento atual acabe em 2020.

Os temores voltaram a assombrar os mercados depois da divulgação dos índices de atividade do Instituto para Gestão da Oferta (1SM), que sinalizaram na semana passada um quadro mais negativo da economia americana em setembro. O índice de atividade do setor industrial indicou o segundo mês consecutivo de contração da atividade nos EUA. já o dado de serviços apontou expansão da atividade, mas a um ritmo bem abaixo do que era esperado.

Além de acreditar quea economia permanecerá resiliente até 2020, Bernardi disse que o fim do ciclo provavelmente não será causado pelos suspeitos mais comumente citados por analistas muito menos por uma repetição da crise anterior, desencadeada pelo alto nível cie alavancagem da dívida corporativa , embora as incertezas em torno das tensões comerciais preocupem. Corroborando essa visão, os relatórios divulgados pelo ISM na semana passada apontam incertezas geradas pela guerra comercial como o principal motivo para a desaceleração.

O outro lado da moeda é que não veremos um crescimento acelerado em qualquer economia avançada tão cedo e os rendimentos dos títulos devem continuar comprimidos pelo horizonte próximo. E isso pode ser favorável para o Brasil, que é visto lá fora, na opinião de Bernardi, como uma `boa oportunidade`.

 

Valor: O senhor espera uma recessão para os EUA em 2020?

Marzo Bernardi: Não. Para 2020, a gente acha que o crescimento estará na faixa de 2%, talvez até 2,25%. Nada exuberante. Este ciclo econômico é longo, mas o crescimento acumulado nesse período é inferior ao de outros períodos de recuperação anteriores. É claro que, com todos os problemas geopolíticos no mundo, é criado um cenário em que o risco de queda é um pouco maior do que era no passado. Apesar dos dados recentes mais fracos, a opinião da Western Asset permanece de que a economia permanecerá resiliente,com um risco maior de desaceleração do que de aquecimento.

 

Valor: O aperto de liquidez nos mercados dos EUA preocupa? Acha que o fedfoi pego de surpresa?

Bernardi: Se olhara movimentação de mercado, se o Fed tivesse atuado imediatamente as taxas curtas não teriam subido até o nível a que chegaram. Mas acho que foi uma conjunção de fatores. Dois fatores de pressão culminaram no mesmo dia, 16 de setembro, que foi a data limite para o pagamento dos impostos das empresas americanas e a liquidação do leilão de Treasuries de US$ 54 bilhões. Acho que foi isso que gerou um `squeeze`cle liquidez no mercado. Agora, dizer que o Fed foi pego de surpresa? O leilão estava marcado e, em geral, o fechamento de trimestre principalmente fechamento do ano fiscal e datas de pagamento de impostos são conhecidos como momentos de maior demanda por liquidez. Eu acho que o Fed atuou rapidamente por meio das `repôs` e levou de volta os mercados para os níveis desejados. Foi um momento particular, uma condição técnica, e não vejo nada muito maiordo que isso.

 

Valor: Terminado o trimestre, tudo deve voltar ao normal?

Bernardi: Deveria voltar. Mas se olhar o conjunto de política monetária, o Fed vinha reduzindo o QE (programa de compras de ativos], parou na última reunião, e acho que agora deve voltar a injetar liquidez no mercado expandindo o balanço. Ao fazer isso, ajuda também a questão da liquidez.

Valor: O QE volta, então? Em dezembro?

Bernardi: Achamos que sim. Talvez até antes.

 

Valor: Um retomo imediato do QE não poderia sinalizar aos mercados que o Fed está vendo uma piora econômica?

Bernardi: Essa é a nossa visão. Se, como foi feito na Europa, injeta liquidez e corta juros ao mesmo tempo, a mensagem fica clara de que estã preocupado com o estado da economia, certo? Se faz cortes de juros em seqüência, tem o mesmo resultado, mas se intercala os cortes com um pouco de liquidez, ajusta a expectativa de forma melhor. Os dados recentes vieram mais fracos que o esperado, o que aumentou a probabilidade de corte neste mês junto com a expansão do balanço do Fed. Nossa opinião é que este é um Fed `dovish [favorável à flexibilização monetária), mas o anúncio deve conter linguagem mantendo as opções em aberto e dependentes de dados. 0 investidor foi entendendo que às vezes as coisas no Brasil acontecem de forma mais lenta do que gostariam`

 

Valor: Com o retorno do QE, para onde a Wesfern se vo/ta, em termos de alocação?

Bernardi: A nossa visão para a economia global, na Western, é que teremos crescimento modesto, mas resiliente, de cerca de 2% nos EUA e de 3% no mundo. Então a nossa visão é que o mundo cresce, não de forma exuberante, mas com crescimento positivo e inflação baixa. O desafio dos BCs é evitar a deflação, como Mario Draghi fez recentemente. Também não vemos, com a quantidade de estímulos que os BCs vão fazer, um modelo em que a in fiação vai a zero. Nesse modelo, riscos de crédito, riscos de spread, são mercados de que gostamos. Nossa maior exposição hoje é em emergentes, Há uma procura mundial por retorno, e em um inundo em que não há recessão e tem um excesso de liquidez, em geral é bom para emergentes. Essa é a nossa aposta principal.

 

Valor: Em um cenário de juro muito baixo no mercado desenvolvido, os emergentes se beneficiam?

Bernardi: Sim. Eles se beneficiam e ainda há espaço para cortar juros para que estimulem as suas próprias economias. Nos nossos fundos de mercados emergentes, onde a meta é uma posição em Brasil de 3,5%, a nossa posição atual é 5%, ou 1,5% acima. Talvez a maior sobrealocação que temos hoje seja Brasil. Em fundo para os quais não temos benchmark, o real brasileiro representa hoje 10% da posição, porque a gente acha que o dólar a RS 4,15, R$ 4,17 é uma boa aposta. Ainda mais com um cenário em relação ao qual estamos mais otimistas, que sâo os juros no Brasil, em que há mais espaço para cortes. Gostamos do real hoje. Temos México, Indonésia e Rússia também. Mas o Brasil é a maior posição.

 

Valor: Qual a visão que se tem do mercado brasileiro no exterior?

Bernardi: A visão de Brasil é, em geral, de uma boa oportunidade. Evidentemente, o investidor foi, ao longo dos anos, entendendo que às vezes as coisas no Brasil acontecem de forma mais lenta do que as pessoas gostariam, mas elas acabam caminhando na direção correta. Se olhar hoje a reforma da Previdência, a reforma tributária, essa é claramente uma agenda vista de forma positiva. É claro que o investidor estrangeiro, lá fora, não estã olhando só o Brasil, então é evidente que o investidor brasileiro olhe o mercado com muito mais detalhamento. Mas eu acho que o investidor global está acompanhando as principais medidas. Então, quem está lã fora pensaque, se as reformas passarem, o investidor vai voltar a olhar com bons olhos o país. Para este ano, o crescimento vai ficar um pouco abaixo de 1%. Ano que vem, a perspectiva já é de quase 2%, 1,8%, ou algo assim, Se vermos as reformas estruturais caminhando e esse crescimento voltando a um nível mais elevado do que nos países desenvolvidos, então veremos uma melhora da visão do investidorcomum para o Brasil.

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